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  • Foto do escritorHiago Soares

Nas barbearias, preconceito contra LGBTQIA+ ainda faz barba, cabelo e bigode

Atualizado: 3 de jul.

Gays e trans são alvo de ofensas, violência e reprovação vindas de profissionais e clientes; estabelecimento na Mangueira aposta em inclusão 


Uma vez ao mês, o estudante de jornalismo Dan dos Prazeres, de 25 anos, reservava um dia para cortar o cabelo em uma barbearia a poucos metros de sua casa em Rocha Miranda, Zona Norte do Rio. A rotina do jovem, que se identifica como homem trans não-binário, foi interrompida por comentários transfóbicos do barbeiro após ele dizer qual corte desejava. “Ele fez comentários sobre cortar meu cabelo em estilo mais feminino e sobre minha pele ser delicada demais para utilizar lâminas. Não é porque você me vê como feminino que eu quero um corte feminino”, relembra o jovem.


Em uma segunda tentativa, Dan resolveu buscar uma cabeleireira. Foi pego de surpresa pela cobrança da profissional: o preço seria mais alto por se tratar de um “corte feminino”. "Cortar o cabelo para pessoas trans é algo complexo. Ou são comentários desagradáveis ou são invalidações”, desabafou o jovem, que desde então decidiu cortar o próprio cabelo em casa.


Dan dos Prazeres ficou meses sem cortar o cabelo para as evitar violências vividas em barbearias [Foto: Arquivo Pessoal]

A experiência dele não é um caso isolado. O estudante de letras Kalebe Soares, de 22 anos, teve seu atendimento rejeitado em uma barbearia de Comendador Soares, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, por ser homossexual. “Cheguei na barbearia que meu irmão indicou e fiquei esperando um pouco. Quando estava perto do meu atendimento, ele me disse que não iria poder cortar, pois a loja estava fechando. Eu vi que chegaram pessoas depois de mim, mas fui o único que ele avisou [que não atenderia]”, conta Kalebe. Para evitar ser alvo de homofobia, desde então, Kalebe não frequenta barbearias desconhecidas. Os cortes são feitos exclusivamente na barbearia de seu irmão. 


Segundo dados do Sistema da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, em 2023, foram registradas mais de 850 denúncias de LGBTfobia no estado do Rio de Janeiro. De acordo com a ONG Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2023, mais de 257 pessoas foram violentamente assassinadas por causa de sua orientação sexual no Brasil - o equivalente a cerca de dois homicídios a cada três dias.


O preço a se pagar pelo desconforto 


Quando o medo da violência não impede pessoas LGBTQIA+ de irem aos estabelecimentos, reprime sua personalidade e atitudes, segundo relatam as vítimas.


Apesar do ajuste no cabelo e barba terem custado seus últimos R$ 50 do mês, Levi Ramos, de 28 anos, preferiu não reclamar com o barbeiro do resultado, que considerou insatisfatório: “Talvez se eu fosse hétero teria mais facilidade em expressar minha desaprovação, mas como sou gay, tive medo de como ele e os demais funcionários reagiriam”. O jovem preferiu pedir dinheiro emprestado à mãe para corrigir as falhas em outro estabelecimento.


A solução encontrada por Igor Chiricho, de 23 anos, foram as aulas do curso profissional de barbeiro em Bonsucesso. “Eu já tinha interesse na área e, justamente por as barbearias serem ambientes predominantemente masculinos e a grande maioria dos barbeiros e os frequentadores serem héteros, tive coragem de entrar no curso”, relata Chiricho. 


Além de Igor, homem gay, a turma é composta por três mulheres e cerca de seis homens heterossexuais. Mesmo no lugar onde busca fugir da homofobia, se vê novamente em situações desconfortáveis. “Os meninos ficavam me olhando, olhando para o corte e eu percebia um desconforto deles comigo”, desabafa.


Igor Chiricho buscou projeto social para não precisar cortar o cabelo em estabelecimentos desconhecidos [Foto: Alexander Victor]

O futuro barbeiro planeja abrir um salão em que pessoas LGBTQIA+ sejam acolhidas. “Eu tenho vontade de cortar para qualquer pessoa, mas, principalmente, para os membros da comunidade, pois nos sentimos muito oprimidos e perseguidos quando estamos nesses lugares”, relata Chiricho.


Barbearia em prol da inclusão


De uma das ruas do morro da Mangueira, saem desde cabelos estilizados, com diversos desenhos e cores, até cortes mais comuns. O trabalho reconhecido nacionalmente é da BRB, a primeira barbearia inclusiva da Zona Norte do Rio de Janeiro, criada em 2021. Após sofrer ataques homofóbicos e racistas, o empreendedor e hairstylist Matheus Telles, de 26 anos, decidiu reunir sua vontade de resistir às habilidades que desenvolve desde 2014.


Matheus Telles fundou barbearia inclusiva para criar espaço confortável à comunidade LGBTQIA+ [Foto: Caren Esposito]

Matheus afirma que a BRB é um ambiente confortável para todos os públicos. Ele ressalta que o local é acolhedor independentemente de raça, gênero, sexualidade e idade. 


O empreendedor revela que é comum que os clientes LGBTQIA+ sejam mais retraídos e, por isso, tem o hábito de puxar assunto para deixá-los à vontade: “As pessoas costumam se abrir para mim, contar sobre suas vidas. Considero que os barbeiros são como psicólogos e estou sempre disposto a aconselhar como amigo.”

 

Na contramão do senso comum sobre a identidade visual de espaços "gay friendly", Matheus optou por representar a marca com cores neutras, como branco, preto, cinza e marrom. A decisão de não adicionar explicitamente símbolos LGBTQIA+ em sua loja tem justificativa: "Não preciso mostrar cores pela causa. Eu e meu serviço somos a causa". 





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