No tabuleiro das baianas tem… coopetição
- Rampas

- há 3 dias
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A convivência entre duas baianas no Campo de São Bento revela como pequenos negócios podem crescer em parceria, sem transformar a concorrência em rivalidade
Por Ana Julia Silveira e Richard Gabriel

Quem caminha pelo Campo de São Bento, em Icaraí, nos finais de semana, é fisgado pelo intenso cheiro do azeite de dendê que ferve logo cedo. Mas para além do aroma que toma conta daquele pedaço de Niterói, o que se vê naquele corredor é uma rara cena de convivência urbana. Separadas por poucos metros, duas baianas legítimas montam seus tabuleiros, acendem suas panelas e vendem exatamente o mesmo produto, o acarajé.
Longe de alimentar a rivalidade óbvia que o comércio costuma impor, a proximidade física de ‘Cida Bahiana’ e do ‘Acarajé da Cláudia Baiana’ transformou o trecho em um polo de atração através de uma dinâmica silenciosa de cooperatividade. Ali, a disputa saudável funciona como um combustível invisível que estimula o aprimoramento de cada barraca, mas que também se resolve na parceria diária. Antes de dividirem o mesmo espaço, no entanto, cada uma trilhou seu próprio caminho.
A inquietação de Cláudia

É em um dos trechos de terra do parque, cercada por mesas dispostas para os clientes, que fica o tabuleiro de Cláudia. Soteropolitana, ela chegou a Niterói em 1996 acompanhando o marido, Arismar Fonseca, então militar da Marinha. Com formação em Educação Física e tendo trabalhado a vida toda, ela trazia consigo uma inquietação natural e a recusa de ficar restrita ao ambiente doméstico. Ela encontrou na rua o seu espaço de expressão e quando começou a trabalhar no Campo de São Bento, entre 2001 e 2002, contou com o apoio da família para transformar o acarajé em seu motor de autonomia.
Sua presença alterou a estética do comércio ambulante local. Com um rigor visual focado no branco impecável de suas toalhas, Cláudia estabeleceu um padrão de higiene que acabou inspirando outros trabalhadores do entorno a também elevarem sua apresentação: "A rua não precisa ser sinônimo de desorganização e sujeira. Se você cuida do seu espaço com rigor, você educa o entorno e eleva o nível de todo mundo que trabalha ali perto", explica.
Focada em uma operação artesanal e única, concentrada estritamente em seu tabuleiro, Cláudia viu sua realidade ser transformada pelo acarajé. Foi com essa renda que ela financiou a faculdade particular da filha e custeou intercâmbios de estudo internacionais. Durante a pandemia, a força de sua clientela a empurrou para o delivery e, posteriormente, para uma loja física em São Francisco, onde chegou a ter oito funcionários registrados. No entanto, o desejo de retornar ao antigo ponto falava mais alto. Com a flexibilização das medidas pós-pandemia, Cláudia buscou desmobilizar a estrutura comercial da loja para retornar ao campo de São Bento. A mudança exigiu tempo e planejamento financeiro, mas a volta era certa.
A força de Cida

A poucos metros dali, a história de Cida Bahiana foi desenhada pela mesma firmeza de passos, mas sustentada por uma lógica inversa: a da descentralização e do crescimento em escala. Ela veio para o Rio de Janeiro muito nova, sozinha e fugindo do então noivo, e encontrou na rua a base para garantir o futuro de sua família. Em 51 anos de ofício, ela viu o mundo mudar e acompanhou de perto a modernização do próprio trabalho. Para isso, buscou o conhecimento técnico para profissionalizar a atividade: "Eu fiz muitos cursos. Aprendi sobre CMV (Custo de Mercadoria Vendida), cálculo de produtos e controle de estoque. Se eu decido fazer uma promoção, não é no olho, é tudo calculado", explica.
Essa visão de mercado transformou a barraca de rua na ponta de uma rede maior. Hoje, aos 72 anos, Cida comanda três pontos de venda. Além do ponto no Campo de São Bento em Niterói, ela também está à frente de um ponto na Praça do Ó, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, um outro ponto no Largo da Carioca, no centro da capital, e de uma fábrica própria para ralar coco e moer grãos no Centro de Niterói. A transição tecnológica fez parte da sua sobrevivência comercial. "Quando comecei, era moinho manual; hoje em dia é tudo elétrico", recorda. Ao todo, a estrutura mantém 9 funcionários fixos e gera até 15 empregos indiretos em períodos de grandes eventos e festas. Essa estrutura deu a Cida o diferencial de diversificar seus produtos. Além do acarajé, seu cardápio oferece uma enorme variedade de doces tradicionais.
Essa tradição com o açúcar foi o ponto de partida de sua história no Campo de São Bento. Anos atrás, a presença de Cida no parque começou ocupando uma das entradas, onde por muito tempo vendeu exclusivamente seus doces. O desejo de introduzir o acarajé ali já existia, mas só ganhou força no cenário de retomada pós-pandemia.
O encontro na calçada
Essas duas trajetórias de sucesso, impulsionadas pelo mesmo produto, mais tarde se encontrariam no mesmo espaço. O período de transição após a pandemia acabou redesenhando o mapa do parque. Como Cláudia ainda organizava o fechamento de sua loja física, Cida moveu sua estrutura primeiro. Inicialmente, ela não queria o ponto que pertencia à colega, mas aquele local acabou sendo o único permitido pela administração do espaço público – afinal, segundo contam as duas, ali o trecho já era conhecido como “o ponto da baiana”. Quando Cláudia finalmente retornou, encontrou seu antigo posto ocupado.

A proximidade imediata inevitavelmente gerou uma tensão inicial, alimentada pelo receio de familiares e pela estranheza de clientes habituais que não estavam acostumados a ver dois tabuleiros dividindo o mesmo lugar. No entanto, o jogo de cintura e a maturidade de ambas falaram mais alto. Cláudia aceitou se estabelecer em um espaço ao lado, até então subutilizado, e a presença das duas acabou por operar uma revitalização social no pedaço, alterando o fluxo de pedestres e trazendo nova vida ao trecho.
Hoje, a convivência se resolve na prática, em um acordo silencioso de respeito mútuo. Ter uma vizinha ao lado, vendendo o mesmo produto, funciona como um combustível invisível, que estimula cada uma a aprimorar seu dia a dia — seja modernizando o atendimento, refinando processos ou trazendo novidades para a apresentação das barracas. Esse cuidado compartilhado transborda para o próprio Campo de São Bento. Ambas mantêm, inclusive, um olhar atento para a população em situação de rua do entorno, dividindo de forma natural a responsabilidade social do espaço que ocupam através da doação de alimentos.
"É comida de Iansã, comida de Orixá, como você vai negar esse alimento para alguém que tem fome? O retorno que a gente tem quando cuida do outro e do espaço não se mede apenas em dinheiro", diz Cláudia. Para ela, esse gesto de partilha na calçada ganha um significado ainda maior ao lembrar que foi a rentabilidade desse mesmo dendê que permitiu sua própria mudança de vida, custeando os estudos e abrindo as portas do mundo para sua família.
Linha do tempo: os caminhos de Cida e Cláudia até o Campo de São Bento
Gestão, tecnologia e tradição
A consolidação dos dois tabuleiros no bairro de Icaraí não acontece por acaso. A atividade faz parte do Ofício das Baianas de Acarajé – reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) –, mas que na calçada se traduz em técnicas modernas de sobrevivência comercial. Para dar conta de suas realidades distintas, Cida e Cláudia encontraram ferramentas tecnológicas e administrativas, cada uma à sua maneira, para proteger o seu diferencial.

Na estrutura descentralizada de Cida, a padronização técnica é a chave para o negócio manter estabilidade mesmo com as mudanças de preço nos materiais. "A massa do acarajé é toda calculada. Ela é preparada, porcionada na medida exata e vai direto para o freezer para não fermentar. Só sai de lá a quantidade certa de ir para o ponto", revela. Essa disciplina de fábrica permitiu a Cida focar na expansão e na mentoria. Sua trajetória reflete um perfil mapeado pelo Sebrae: no quarto trimestre de 2025, as mulheres com 60 anos ou mais representavam 13% do total de lideranças femininas em negócios no país. Cida, aos 72 anos, faz parte desse grupo de empreendedoras maduras que sustentam a economia criativa nas ruas e ocupam um papel estratégico na mentoria das novas gerações.
Já Cláudia, focada em manter sua operação enxuta e estritamente artesanal, buscou na tecnologia digital a saída para otimizar o estoque e fidelizar o público. "Tem mais ou menos um mês que eu estou trabalhando com a maquininha que já sai escrito tudo impresso. Antes eu trazia vinte latinhas de refrigerante, vendia tudo e as meninas continuavam oferecendo sem ter. Agora o estoque está todo controlado no sistema", comemora. O Instagram virou o canal oficial para falar com os clientes do parque. "A tecnologia é maravilhosa para a fidelidade. Se vai chover, eu aviso lá: 'Gente, hoje não vou, está começando a chover'. Se você muda de lugar, o cliente te acha".
O pacto do dia a dia
Essa diferença na gestão acaba se refletindo também no paladar e na experiência do cliente, criando duas identidades que justificam o vaivém do público no espaço. Na barraca de Cláudia, o cliente encontra um ambiente mais minimalista, focado apenas no acarajé e no tradicional bolinho de estudante, que ela faz questão de servir frito. Já no tabuleiro de Cida, a imponência visual é acompanhada por uma explosão de sabores que inclui os famosos doces baianos e uma versão assada do mesmo bolinho de estudante.

Essa diferenciação de propostas – sustentada por preços equivalentes, com o acarajé de Cida a R$ 25 e o de Cláudia a R$ 27 – é o que faz o mercado se expandir em vez de encolher, e desperta a curiosidade de quem frequenta o Campo. "Eu já tenho meus clientes e ela tem os dela. Mas tem cliente que a esposa compra aqui comigo e o marido compra lá com ela. Tem gente que era fiel ao meu acarajé e passou a conhecer o dela, e vice-versa. Tem uns que dizem: 'Hoje vou comer aqui, amanhã como lá'. No final do dia, as duas vendem tudo", relata Cida.
Nos fins de semana de sol, quando as filas se cruzam e a calçada aperta, a concorrência dá lugar definitivo a uma rede de apoio invisível para quem olha de fora. É o que hoje em gestão de negócios se chama de coopetição: uma concorrência marcada pela parceria, em que cooperação e competição se somam sem prejudicar o negócio de ninguém. Se faltar troco em um tabuleiro, o outro fornece; se o estoque de insumos ameaça acabar na metade do dia, a vizinha socorre. "A gente se fala de boa e se ajuda. Ela gosta do meu bolinho de estudante frito e às vezes me pede: 'Claudinha, faz um frito aí para mim'. E eu também gosto dos doces dela. A gente troca pratinho, troca Coca-Cola, não tem nenhum problema", conta Cláudia.
Essa dinâmica reforça a premissa que Cida carrega como filosofia de vida sobre o comércio popular: a de que a rua só sobrevive através do movimento coletivo. Uma barraca atrai o olhar, a outra segura o fluxo, e o corredor inteiro se fortalece. "Comércio de rua precisa de povo, precisa de fluxo. Uma barraca chama cliente para a outra, e no final, quando todo mundo trabalha bem, a rua inteira ganha", finaliza Cida.
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