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Nosso Sonho: o parque que São Gonçalo sonhava em ter e agora existe

há 15 minutos
9 min de leitura

Novo espaço de lazer de São Gonçalo tem nome de canção de Claudinho e Buchecha, dois filhos da cidade, e representa um desejo antigo dos moradores. Veja o que fazer, as regras do espaço e como chegar


Por: Lara Soares


Letreiro com nome do Parque no Acesso B, no sábado, 5 de setembro de 2026. (Foto: Lara Soares)
Letreiro com nome do Parque no Acesso B, no sábado, 5 de setembro de 2026. (Foto: Lara Soares)

O Parque RJ Nosso Sonho, no bairro Boa Vista, em São Gonçalo, foi batizado em homenagem a “Nosso Sonho”, um dos maiores hits de Claudinho e Buchecha, dupla de funkeiros nascida na cidade. Mas o nome carrega um segundo significado: durante anos, ter um espaço de lazer à altura da cidade era  um sonho para quem mora ali. “São Gonçalo precisava de um lugar desse”, resume Cláudia Márcia Couto, 54 anos, funcionária do parque.


Esse sonho coletivo ganhou forma no domingo, 1º de março de 2026, dia da inauguração oficial. Houve shows dos cantores Buchecha e Thiago Martins, recreação para as crianças e homenagens a diferentes gerações que, de um jeito ou de outro, ajudaram a moldar aquele espaço. Hoje, o parque reúne moradores com relações bem diferentes com aquele terreno: gente que já o frequentava antes de qualquer reforma oficial e gente que só conheceu o lugar depois da inauguração.


O piscinão, a pista e o parque


Inaugurado em 2004, o antigo Piscinão de São Gonçalo foi criado como uma área pública de lazer, com piscina de água salgada e praia artificial às margens da Rodovia Niterói-Manilha. O espaço também tinha quadras, palco, brinquedos e área de convivência.


Depois de apenas quatro anos de funcionamento, foi fechado pela primeira vez em 2008. Em 2010, o governo do Estado assumiu o espaço, remodelou a estrutura com um investimento de cerca de R$ 4 milhões e o reabriu ao público. O fôlego, porém, durou pouco: em 2015, o piscinão foi desativado, e o terreno ficou sem uma estrutura oficial de lazer pelos anos seguintes Foi nesse intervalo que a população passou a criar outras formas de ocupação.


Gabriela da Mata, 25 anos, personal trainer, anda de skate desde criança. Antes de existir o Parque RJ Nosso Sonho, ela já frequentava o terreno do antigo Piscinão e fazia parte do grupo de skatistas que ajudou a construir uma pista no local.


“O pessoal começou a montar aqui um lugar que era para o skate, que as próprias pessoas fizeram”, lembra. A estrutura ficou conhecida como Jiboia DIY, sigla em inglês para “faça você mesmo”. A pista começou a ser construída em 2021, quando o antigo piscinão já estava desativado, e passou por anos de construção e revitalização realizadas pelos próprios skatistas. Entre 2021 e 2024, diferentes gerações de praticantes de São Gonçalo e de outros municípios participaram da manutenção e transformação do espaço, que acabou ganhando destaque na cena do skate. 


Gabriela da Mata, de 25 anos, na “Pista de Corrida e Caminhada” em frente ao “Skate Park”, no sábado, 5 de setembro de 2026. (Foto: Lara Soares)
Gabriela da Mata, de 25 anos, na “Pista de Corrida e Caminhada” em frente ao “Skate Park”, no sábado, 5 de setembro de 2026. (Foto: Lara Soares)

Quando surgiu o projeto do novo parque, veio uma preocupação: o que aconteceria com aquela pista? A resposta foi a criação de um novo skatepark dentro do complexo. Batizado de Jiboia Skatepark, o equipamento tem 560 metros quadrados e preserva referências da antiga pista. O traçado foi desenvolvido com a participação de skatistas gonçalenses, que apresentaram sugestões durante o processo de elaboração. 


Para Gabriela, a permanência do skatepark representa uma continuidade. Ela segue frequentando o local cerca de uma vez por semana e divide os treinos entre skate e corrida.


“Muitas vezes é perigoso correr na rua à noite, e também aqui em São Gonçalo não tinha uma pista dessa infraestrutura”, diz. Ela também destaca a presença dos monitores e conta ter presenciado o atendimento rápido a uma mulher que passou mal no posto de primeiros socorros do parque.


A transformação não atraiu apenas quem já frequentava o terreno. O aposentado Jarbas Lopes de Paula, 70 anos, formado em Letras pela UFRJ, nunca tinha sido frequentador do antigo Piscinão. Preferia as praias da Região dos Lagos e, quando passava de carro pela região, não tinha interesse em parar. Foi a divulgação do novo parque que o fez mudar de ideia.


Jarbas Lopes de Paula, de 75 anos, em frente ao Playground do “Parque Sensorial”, no sábado, 5 de setembro de 2026. (Foto: Lara Soares)
Jarbas Lopes de Paula, de 75 anos, em frente ao Playground do “Parque Sensorial”, no sábado, 5 de setembro de 2026. (Foto: Lara Soares)

Ele conheceu o espaço com a esposa e os dois netos. Gostaram e voltaram outras vezes, cerca de uma ou duas vezes por mês nos últimos meses.


“A gente traz eles para o parque. Vêm aqui, correm para lá e para cá, e à noite é uma beleza, porque chegam cansados e vão dormir”, conta. Antes do parque, os netos brincavam na Praia das Pedrinhas, ali perto, ou precisavam ir até Niterói para encontrar outras opções de lazer.


A experiência de Jarbas é diferente da de Gabriela, mas as duas histórias revelam uma característica do novo espaço: ele passou a reunir tanto quem já tinha uma relação com aquele território quanto moradores que só começaram a frequentá-lo depois da transformação.


Um parque mantido por uma parceria de recursos entre o Estado e a Prefeitura, foi ganhando vida após a inauguração


A inauguração oficial do parque, em 1º de março, foi apenas o começo. Desde então, a programação do Parque RJ Nosso Sonho passou a incorporar atividades esportivas, culturais e de convivência praticamente todos os meses. A própria Prefeitura mantém um histórico de atividades realizadas no espaço desde a inauguração.


Em março, a Prefeitura abriu aulas gratuitas de diferentes modalidades. Em abril, o parque sediou uma etapa do Circuito Carioca de Handebol de Praia. Em maio, foi a vez de o karatê entrar na grade de aulas gratuitas, somando-se a modalidades como basquete e handebol de areia.


Em junho, o parque entrou no clima das festas populares da cidade com a apresentação da Quadrilha Balão Dourado. Em julho, a programação ganhou ainda mais variedade: o espaço recebeu a Expo Feirando, feira de gastronomia, moda e empreendedorismo, além de uma roda de capoeira, ações gratuitas de saúde para mulheres e crianças pelo projeto Força da Mulher Gonçalense e mais uma etapa do handebol de praia.


Em agosto, a Expo Feirando ganhou uma segunda edição, desta vez batizada de Feira do Parque, reunindo novamente empreendedores locais, atrações musicais e atividades infantis. O espaço também recebeu aulões esportivos gratuitos. O parque não ficou restrito à prática esportiva. Aos poucos, passou a funcionar também como palco cultural, ponto de encontro, espaço para empreendedorismo e local para atividades promovidas por diferentes setores da Prefeitura.


Inclusão também entrou na programação


Novos brinquedos inclusivos foram instalados na área sensorial, com rampas, corrimãos e dimensões pensadas para facilitar o acesso de cadeirantes e promover a convivência entre crianças com e sem deficiência. A instalação foi anunciada pela Prefeitura em 16 de agosto. 


No mês seguinte, o espaço também foi usado como território educativo. Em 3 de setembro, a Secretaria Municipal de Educação realizou no parque a Jornada Setembro Verde, reunindo estudantes da rede municipal com deficiência, familiares e profissionais da Educação Especial, além de ações do Programa Saúde na Escola. A proposta era justamente usar o parque como espaço de convivência e aprendizagem para além dos muros da escola.


A sequência é simbólica. Um equipamento que nasceu como obra de infraestrutura passou, em poucos meses, a ser usado para esporte, cultura, lazer, empreendedorismo e educação.


Entre a estrutura e o uso cotidiano


Por trás dessa programação existe uma equipe que precisa fazer o parque funcionar diariamente. Cláudia é auxiliar administrativa no parque e atua como monitora nos fins de semana. Professora de educação física, ministra aulas de ginástica funcional nas manhãs de sexta-feira.


Claúdia Márcia Couto, de 54 anos, em frente  ao “Skate Park”, no sábado, 5 de setembro de 2026. (Foto: Lara Soares)
Claúdia Márcia Couto, de 54 anos, em frente  ao “Skate Park”, no sábado, 5 de setembro de 2026. (Foto: Lara Soares)

Na rotina, ela orienta os visitantes e acompanha o funcionamento de diferentes áreas. Na pista de skate, por exemplo, a orientação é que apenas skatistas e praticantes de patins utilizem o espaço, reduzindo o risco de acidentes. No parquinho, há regras específicas para o uso infantil.


Um dos problemas que Cláudia observa está justamente na área da cascata: a areia carregada pelos visitantes pode chegar ao sistema de filtragem, o que exige atenção dos funcionários para orientar as pessoas a não entrarem na água com excesso de areia. No redário, outro desafio aparece no uso cotidiano: redes podem ser danificadas por crianças e adultos, ainda que qualquer visitante possa levar a própria rede para usar o espaço.


São situações pequenas diante do tamanho do projeto, mas que mostram a diferença entre entregar um equipamento e fazê-lo funcionar todos os dias, além da importância do monitoramento para melhorias futuras.


O que ainda pode melhorar


Diferentemente de Cláudia, que trabalha no Parque desde sua abertura, Gustavo de Moraes Pinto, 19 anos, começou a trabalhar como Monitor no espaço um pouco antes da entrevista para o Rampas. Morador de São Gonçalo desde que nasceu, ele já conhecia o parque antes de integrar a equipe.


Gustavo de Moraes Pinto, de 19 anos, no “Parcão”, no sábado, 5 de setembro de 2026. (Foto: Lara Soares)
Gustavo de Moraes Pinto, de 19 anos, no “Parcão”, no sábado, 5 de setembro de 2026. (Foto: Lara Soares)

“É um parque muito bem organizado. Não falo isso porque eu trabalho aqui não, mas é realmente um parque muito bem organizado”, afirma.


Entre seus locais preferidos estão a cascata e as quadras de futebol. Mas, quando perguntado sobre o que poderia melhorar, aponta a sinalização, já que algumas placas podem passar despercebidas.


Outra observação feita por frequentadores é a oferta de sombra. Em alguns pontos, as árvores plantadas no projeto ainda são jovens e não produzem cobertura suficiente para quem permanece no parque por longos períodos, algo que deve mudar com o tempo, à medida que a arborização se consolida.


O Parque RJ Nosso Sonho reúne uma estrutura extensa: pista de atletismo, ciclovia, Jiboia Skatepark, quadra poliesportiva, duas quadras de areia, campo de futebol society, academia ao ar livre, parquinho, espaço sensorial, Parcão, redário, área de piquenique, cascata com sistema autofiltrante, palco para eventos e área gastronômica. O anfiteatro em que o palco está localizado tem capacidade para até 15 mil pessoas. 


O projeto também recebeu investimentos em segurança e iluminação. Segundo o governo do Estado, o parque conta com câmeras de monitoramento e iluminação em LED. A Prefeitura informa que o espaço funciona com monitoramento 24 horas e apoio da Guarda Municipal e da Polícia Militar. 


A identidade visual do parque também marca a relação com a cidade: intervenções de arte urbana do artista gonçalense Marcelo Eco ocupam diferentes pontos do espaço.


Quando o espaço vira hábito


A transformação de um lugar público não termina na inauguração. Ela continua quando as pessoas passam a voltar. Gabriela levou a mãe para conhecer a pista de corrida, e ela também passou a frequentar o parque. As alunas do estúdio que Gabriela mantém já consideram realizar em São Gonçalo eventos que antes aconteciam em Niterói.


Cláudia incorporou o espaço à rotina da família, e uma prima chegou a comemorar o mêsversário da filha ali. Jarbas, que nunca havia frequentado o antigo Piscinão, agora volta com os netos.


São experiências diferentes, mas todas apontam para a mesma mudança: o terreno que, durante anos, ficou associado ao Piscinão e, depois, ao abandono, voltou a fazer parte da rotina de moradores.


Para os skatistas que construíram a Jiboia DIY, a transformação também significou deixar uma marca permanente no novo espaço. Para quem chegou depois, o parque já começa a criar outras memórias.


O antigo Piscinão foi construído para oferecer lazer. Depois, ficou vazio. A comunidade ocupou parte daquele território por conta própria. E agora uma nova estrutura tenta transformar novamente aquele espaço em um lugar de encontro. O sonho, desta vez, não terminou na inauguração.


SERVIÇO


Placa com mapa do Parque no Acesso B, no sábado, 5 de setembro de 2026. (Foto: Lara Soares)
Placa com mapa do Parque no Acesso B, no sábado, 5 de setembro de 2026. (Foto: Lara Soares)

Parque RJ Nosso Sonho


Endereço: Rua Formosa, 3352, Boa Vista, São Gonçalo (RJ), CEP 24.425-285.


Funcionamento: terça a domingo, das 6h às 22h. Fechado às segundas-feiras para manutenção.


Cascata: das 8h às 17h, com funcionamento até as 18h no verão.


Entrada e atividades esportivas: gratuitas. O parque oferece aulas de diferentes modalidades esportivas. Para participar, basta ir ao local no horário da aula e procurar o professor responsável.


Estrutura: cascata, Jiboia Skatepark, pista de atletismo Lucas Celestino, quadra poliesportiva, quadras de areia, campo de futebol society, academia ao ar livre, parquinho infantil, espaço sensorial inclusivo, Parcão, redário, área de piquenique, ciclovia e área gastronômica com food trucks. O anfiteatro tem capacidade para até 15 mil pessoas.


Regras gerais: é proibido entrar com armas, drogas, vidro ou caixas de som em volume alto; pichar ou danificar estruturas; e realizar comércio ambulante sem autorização da Prefeitura. Veículos motorizados são permitidos apenas nas áreas autorizadas. O lixo deve ser descartado nas lixeiras, e crianças precisam estar acompanhadas de um responsável.


Acessibilidade: rampas, corrimãos e brinquedos inclusivos na área sensorial, além de banheiros acessíveis.


Estacionamento: cerca de 150 vagas, com vagas reservadas para pessoas com mobilidade reduzida.


Como chegar: de carro, pela BR-101/Rodovia Niterói-Manilha. De ônibus, há um ponto em frente ao parque, atendido por linhas intermunicipais que circulam pela BR-101 ou pelo bairro Boa Vista. Em carros de aplicativo, o local ainda pode ser identificado como “Piscinão de São Gonçalo”. Quem vem da cidade do Rio pode seguir até Niterói e, de lá, pegar um ônibus via BR-101 até o parque.


Contato: Instagram @parquerjnossosonho. 

A Fundação de Artes, Esporte e Lazer de São Gonçalo (Faelsg), responsável pela administração do espaço, informa o telefone (21) 99958-2289 para informações.


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