“O ambiente quem faz é a gente”: morador dá nova vida a praça em Santa Cruz
Com dedicação, pintura e afeto, paisagista do bairro revitaliza lugar que é palco de memórias da região
Por Mariana Chermaut

Muros azuis vibrantes e brinquedos coloridos fazem parte do novo visual da Praça Dom Romualdo, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O novo estilo repleto de cores foi iniciativa de um morador que, além de pintar, também trouxe novas plantas e cortou a grama, dando vida nova à praça que marcou a memória de muitos que vivem na região.
Luís Cláudio Lopes Pereira, de 52 anos, trabalha com paisagismo e jardinagem na Fazenda Muriqui, no município de Mangaratiba. Depois de morar na região por um tempo, voltou há dois anos para Santa Cruz, onde cresceu. Observando a praça e seu aspecto “largado”, foi se incomodando cada vez mais. Até que decidiu colocar em prática sua experiência na área e oferecer uma nova imagem a esse ambiente.
“A gente que mexe com jardim não gosta de ver o lugar sofrendo. Eu convivi aqui há muito tempo e eu lembro que a pracinha não tinha nada. A gente não tinha uma quadra dessa na minha época e hoje tem. Então, por que a gente não cuida, agora que tem alguma coisa? (...) Ali era um troço da Cedae que tinha uns canos. A gente machucava o pé, mas jogava a bola. E hoje tem uma quadra bonita, uma pracinha que foi feita, restaurada. Então a gente tem que cuidar”, conta Luís.
E foi assim que tudo teve início, há cerca de um ano. O que começou com ele cortando a grama que estava alta e comprando tinta por conta própria passou a contar com o apoio de outros moradores da vizinhança, que gostaram de seu trabalho. Alguns doaram materiais; outros, dinheiro para comprar mais. Ele conta que, pelo grupo de WhatsApp da rua, quase todo mês alguém ajuda com a compra de tinta. De pouco a pouco e com a colaboração de todos, a praça foi chegando à aparência que tem hoje.

A disposição de Luís Cláudio em tomar esse tipo de atitude tem raízes antigas. Ele conta que, desde sua infância, por volta dos 9 ou 10 anos, moradores — incluindo seu pai, Damião — já se reuniam para cuidar da praça e fazer mutirões de limpeza, principalmente quando as companhias responsáveis pela manutenção do lugar entravam em greve.
Assim como essas atitudes serviram de exemplo para Luís, a iniciativa que ele retoma hoje também serve de inspiração para todos. Mais do que uma boa ação, o cuidado com a praça é um chamado à própria observação e ao cuidado com aquilo que está à nossa volta, em especial o meio ambiente.
“O ambiente é tudo, né? O ambiente quem faz é a gente”, afirma Luís. “Se as pessoas virem o que a gente tem perto da nossa casa, sempre tem uma coisa interessante se você se unir e fazer. Acho que quando as pessoas daqui derem valor a isso, as pessoas de fora vão ver e vão querer fazer também, perto da casa delas. Então, acho que todo mundo tem que olhar um pouquinho para todos e fazer, cada um, um pouquinho da sua parte.”

Uma das razões que também o motivou a agir foi a vontade de criar um ambiente acolhedor para sua neta, Luara, de 3 anos. Assim como ela, muitas crianças frequentam o local para brincar, especialmente agora, com o espaço mais alegre.
Uma dessas crianças é o Higor Samuel, de 8 anos, filho de Jacqueline Santos. Quase toda semana ele marca presença na praça, e não é o único: está sempre acompanhado dos amigos e de suas mães, que também se tornaram próximas graças aos filhos.
“Eu costumo falar para as meninas que a gente está criando memórias afetivas na praça. Porque, realmente, desde muitos anos eu não tinha conhecimento de ninguém daqui, de amizade. E aí a gente vem levando as crianças, brincando com elas. É bom tanto para o círculo de amizade deles, como para o nosso. Porque foi na praça que o nosso grupo de amigas se conheceu. E, com isso, a gente está até hoje ali”, conta Jacqueline.
Ela diz também que, desde que a revitalização começou, o local tem melhorado bastante. E não só visualmente: ela acredita que a iniciativa dos moradores também está chamando a atenção dos órgãos competentes para cuidar da manutenção. Brinquedos que costumavam ficar em más condições, com peças faltando ou instáveis, agora recebem a devida atenção. Para ela, isso fortalece a sensação de segurança no local e dá até “mais vontade de voltar e aproveitar”.
“Esses dias eu estava passando e vi um grupo de adolescentes falando assim, ‘nossa, olha que praça bonita, vamos tirar uma foto?’ Eu fiquei tão orgulhosa, fiquei tão feliz, porque até um tempo atrás isso não seria possível.”
A melhora no espaço também a motivou a organizar piqueniques, que acontecem frequentemente entre o grupo de amigos. A ideia surgiu quando Jacqueline, após fazer um piquenique na Quinta da Boa Vista com a família, se perguntou: “Por que todas as vezes, se eu quiser fazer um piquenique, eu vou ter que vir para longe? Por que não fazer na praça?”
Essa é uma realidade comum não só para ela, mas também para muitas pessoas que vivem em áreas periféricas da cidade e precisam enfrentar longas distâncias para ter acesso a ambientes bem cuidados e a oportunidades de lazer. Jacqueline talvez continuasse sendo uma dessas pessoas, esperando a chance de, de vez em quando, fazer um passeio diferente. Contudo, algumas possibilidades surgiram quando a praça começou a ser cuidada, e Jacqueline decidiu aproveitá-las.
O grupo fez o primeiro piquenique e, a cada encontro, as crianças foram se empolgando cada vez mais. Hoje, elas pedem pelos encontros sempre. O que seria um acontecimento eventual na vida delas acabou se tornando parte da rotina e fonte de novas memórias.
O sucesso foi tanto que Jaqueline comemorou o aniversário do filho na praça, em uma festa simples, apenas para fazer algo divertido com os amigos. “Foi um dia que as crianças falam que sempre vão lembrar. Por mais que tenha sido simples, foi no lugar deles, no momento deles, na praça em que eles estão crescendo. Meu filho brinca na praça desde que ele tinha meses, então foi uma memória muito importante”, ela conta.

Para as mães, a praça também se tornou uma maneira de fazer os filhos aproveitarem a infância longe das telas: “Hoje em dia, eles ficam muito grudados no telefone. Então, para sair um pouco dessa era digital, a gente prefere levar para a praça, porque lá não tem isso. Então, eles só brincam, eles são crianças”, diz Jaqueline. Ela também reflete: “Para ficar fora das telas, é só com um ambiente ao ar livre, e agora a gente está conseguindo viver essa nova realidade. Porque muita gente não tem a possibilidade de viver assim como a gente, numa praça, por conta da violência. E aqui a gente já está conseguindo.”
A fonte Wallace

A Praça Dom Romualdo abriga uma das três fontes Wallace desse modelo existentes no Brasil. Criada por Charles Lebourg a pedido do inglês Richard Wallace no final do século XIX, a fonte faz parte de uma série de esculturas em ferro fundido destinadas a embelezar praças e parques. Elas são compostas por quatro figuras femininas — cariátides —, trajadas com vestes gregas e posicionadas sobre um pedestal, sustentando uma cúpula. Cada uma delas representa uma virtude diferente: a bondade, a caridade, a sobriedade e a simplicidade.
Durante o processo de revitalização da praça, Luís Cláudio entrou em contato com a prefeitura do Rio de Janeiro e pediu que a fonte fosse retocada com suas cores tradicionais. Ele já havia tentado pintá-la antes, mas, como as cores utilizadas não eram adequadas para manter a fidelidade histórica da obra, a pintura foi retirada.
As outras duas fontes Wallace estão situadas na cidade do Rio de Janeiro: uma no Parque Nacional da Tijuca e outra no Parque Natural Municipal da Cidade, na Gávea. Várias outras estão distribuídas ao redor do mundo, a maioria em Paris.
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