O MAC que Niterói vê, mas nem sempre visita
Três décadas depois da inauguração, o museu que se tornou símbolo da cidade busca se aproximar mais dos moradores com exposições e programação voltada para quem vive na região
Por: Lara Soares

Há quatro anos, Luiz Eduardo de Moraes Pimentel, de 22 anos, convive diariamente com uma das imagens mais conhecidas de Niterói. Morador da região da Boa Viagem, ele vê o Museu de Arte Contemporânea no caminho de casa e considera a paisagem parte de sua rotina. A presença do prédio, projetado por Oscar Niemeyer, é tão natural que ele descreve a possibilidade de sair de casa e contemplar a Baía de Guanabara como algo quase terapêutico.
“Morar perto de um aparelho cultural como o MAC é uma situação de um privilégio muito grande”, conta.
Apesar da proximidade, a relação de Luiz Eduardo com o museu acontece principalmente do lado de fora. Ele não costuma visitar exposições e diz que não tem o hábito de frequentar museus. Em setembro, quando o MAC completou 30 anos, ele também não participou da programação comemorativa. Mais do que isso: não sabia que a instituição estava completando três décadas.
A experiência do morador ajuda a olhar para o aniversário do MAC por outro ângulo. Depois de 30 anos, o museu já não precisa conquistar um lugar na imagem de Niterói. A arquitetura de Niemeyer fez isso há muito tempo. O desafio que aparece agora é outro: como fazer com que um espaço tão presente na paisagem também faça parte da rotina cultural dos moradores?
Desde a inauguração, em 2 de setembro de 1996, mais de 3,5 milhões de pessoas já passaram pelo museu, segundo a Prefeitura de Niterói. Ao longo das três décadas, foram mais de 250 exposições. O prédio também se consolidou como um dos principais símbolos da cidade e como atração para turistas brasileiros e estrangeiros.

Mas números de visitação não contam sozinhos quem são essas pessoas, nem o que elas procuram quando chegam ao Mirante da Boa Viagem. Para Luiz Eduardo, parte delas chega de longe. Ele conta que algumas exposições alteraram a movimentação do bairro, com visitantes que depois seguiam para bares e restaurantes da região. A presença de turistas, para ele, é positiva e ajuda Niterói a aproveitar seu potencial cultural e turístico. “Você sempre via pessoas no bairro que pareciam ter vindo de longe para poder estar ali”, lembra.
O morador não vê a distância entre os niteroienses e o museu como uma questão necessariamente negativa. Ele próprio reconhece que o MAC é uma das imagens que aparecem imediatamente quando se fala na cidade. “Ele é icônico na paisagem de Niterói”, afirma. O que existe, no seu caso, é mais simples e talvez justamente por isso mais revelador: a falta do costume de entrar.

A arquitetura ajuda a explicar por que o MAC se tornou tão presente mesmo para quem não frequenta suas galerias. No Plano Museológico da instituição, o próprio Niemeyer descreve que, ao conhecer o terreno, encontrou “o mar, as montanhas do Rio, uma paisagem magnífica que devia preservar”. A partir disso, criou a forma circular do edifício e a rampa que conduz os visitantes ao museu.
A história contada pelo ex-prefeito Jorge Roberto Silveira, responsável por convidar o arquiteto para desenvolver o projeto, acrescenta outra camada. Segundo o relato de Jorge Roberto a lsjlfjsljs, Niemeyer, ele, ao chegar ao Mirante da Boa Viagem, teria decidido imediatamente que aquele seria o local do museu e imaginado o prédio “como se fosse um pássaro pousando ou uma flor brotando”.

O resultado transformou a relação entre arquitetura e paisagem em parte da própria experiência do MAC. A Secretaria Municipal das Culturas define o museu como o primeiro projeto de Niemeyer realizado em Niterói e afirma que o edifício se tornou símbolo da cidade, atraindo milhares de turistas todos os anos. O espaço abriga a Coleção João Sattamini, uma das principais coleções de arte contemporânea do país.
É justamente essa força da arquitetura que cria um desafio para a instituição: o prédio pode ser visitado, fotografado e reconhecido sem que o visitante necessariamente atravesse suas portas.
Para Victor De Wolf, diretor-geral do MAC, a questão passa justamente por quem ainda não entrou. “Mais importante do que o público que entra, é o público que ainda não entrou no museu”, afirma.
Segundo o diretor, o museu tem buscado ampliar a presença de novos públicos e de artistas de diferentes grupos, além de tornar a arte contemporânea mais próxima do cotidiano. A instituição também afirma ter aumentado a proporção de pessoas que entram nas galerias depois de chegar ao pátio. De acordo com De Wolf, antes, cerca de um terço dos visitantes do pátio entrava no museu. Hoje, a estimativa apresentada pela direção é de 50%.
A tentativa de aproximação passa também pela própria programação. Nos últimos anos, o MAC ampliou a presença de artistas que historicamente tiveram menos espaço em sua trajetória. De Wolf cita como marcos a primeira exposição individual de uma artista negra no museu, de Sonia Gomes, em 2018, e a primeira exposição de arte indígena, “Mekukradjá”, em 2023. Para ele, essas datas ajudam a revelar como a perspectiva da instituição foi mudando ao longo do tempo.
A mudança também aparece na forma como o museu tenta apresentar a arte contemporânea. Para o diretor, ela não precisa estar distante das experiências cotidianas do público. Música, cultura urbana e outras manifestações podem fazer parte desse diálogo. A intenção é diminuir a percepção de que o museu é um lugar reservado a quem já entende de arte.
A tentativa de criar novas formas de aproximação não acontece apenas dentro das galerias. Em 2026, a programação dos 30 anos inclui uma exposição voltada especificamente para crianças. Em “MAC para Crianças”, obras da coleção são apresentadas em uma linguagem adaptada ao público infantil, com possibilidade de interação e brincadeiras. Para De Wolf, apresentar o museu às crianças também é uma maneira de pensar o futuro da instituição.

Essa preocupação com a formação de público também aparece na experiência do professor Mauro César Rodrigues, de 59 anos, que já levou alunos ao MAC mais de uma vez. Professor de matemática da rede estadual, ele participou de uma visita escolar ao museu e considera esse tipo de passeio uma oportunidade de apresentar aos estudantes experiências culturais para além da sala de aula.
“Sempre que o Estado proporciona esse passeio para a gente, fazendo um passeio cultural com as crianças, para que a gente possa mostrar um pouquinho mais de cultura, além da sala de aula”, conta.
A diferença entre os dois personagens ajuda a dimensionar o lugar que o MAC ocupa na cidade. Para um, o museu é uma paisagem cotidiana que pode ser admirada sem necessariamente ser visitada. Para outro, é um destino para levar estudantes e ampliar a experiência escolar. Entre essas duas relações existe uma variedade de maneiras de ocupar o espaço, como turista, morador, estudante, artista ou visitante ocasional.
O próprio MAC reconhece que essa relação com a cidade nem sempre foi constante. De Wolf afirma que, ao longo dos 30 anos, houve momentos em que o museu se afastou do cotidiano dos moradores. Agora, segundo ele, a instituição busca se reconectar com a cidade, com os artistas que vivem em Niterói e com pessoas que ainda não frequentam o espaço.
Essa aproximação também envolve questões de acessibilidade. Na programação dos 30 anos, a exposição “Sentir pra Ver”, instalada no Espaço Educativo Petrobras, apresenta reproduções de obras da Pinacoteca de São Paulo em uma experiência sensorial que utiliza tato, audição, olfato e visão. A iniciativa segue princípios de acessibilidade universal.

O Plano Museológico do MAC também estabelece a necessidade de adequar os espaços às diferentes demandas de circulação, conforto e acessibilidade, incluindo recursos expográficos voltados a pessoas com deficiência.
Há, portanto, uma diferença entre o MAC que já pertence ao imaginário de Niterói e o MAC que a instituição tenta construir para os próximos anos. O primeiro já está consolidado. O segundo depende de uma relação mais cotidiana com a população.
Aos 30 anos, o museu não precisa mais provar que é um símbolo de Niterói. Sua forma já aparece em fotografias, lembranças e referências à cidade. A questão agora é outra: se o prédio já faz parte da paisagem, como fazer com que a experiência cultural também faça parte da vida de quem mora nela?
Luiz Eduardo acredita que a presença do MAC é hoje indissociável da região. Mesmo sem frequentar as exposições, ele reconhece que seria difícil imaginar aquela parte de Niterói sem o edifício de Niemeyer.
Talvez seja justamente nessa diferença entre estar perto e entrar que esteja uma das questões deixadas pelo aniversário de 30 anos. O MAC já conquistou seu lugar na paisagem. O próximo passo é fazer com que mais moradores reconheçam que também têm lugar dentro dele.
Serviço | 30 anos do MAC: o que está em cartaz

MAC Monumental No salão principal, a exposição reúne obras de grandes dimensões do acervo do museu. Entre elas está uma obra de Daniel Senise produzida a partir do carpete original do projeto de Oscar Niemeyer.
MAC para Crianças Na varanda, a mostra apresenta obras da coleção do MAC em uma proposta voltada ao público infantil. As obras são apresentadas em uma altura adaptada às crianças, que também podem rabiscar e colorir paredes e participar de atividades relacionadas à arte.
MAC Panorama No mezanino, a exposição recupera a história do museu e mostra o processo de formação de seu acervo, reunindo obras das coleções MAC Niterói e João Sattamini.
As três exposições integram a programação dos 30 anos e ficam em cartaz até 22 de novembro de 2026. O MAC funciona de terça a domingo, das 10h às 18h, com entrada permitida até 17h30. O ingresso custa R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada). Às quartas-feiras, a entrada é gratuita. O museu fica no Mirante da Boa Viagem, s/nº, em Niterói. (Prefeitura Municipal de Niterói)
“Sentir pra Ver” também integra a programação em cartaz no Espaço Educativo Petrobras. A mostra apresenta reproduções de obras da Pinacoteca de São Paulo em uma experiência multissensorial e acessível. (Prefeitura Municipal de Niterói)
.png)

Comentários