top of page

O que aconteceu com o Museu Nacional 8 anos após o incêndio?

há 2 dias
5 min de leitura

Entre descobertas arqueológicas, recuperação de peças e novas tecnologias, museu avança na reconstrução e prepara reabertura para 2029


Por Gabriela Martin


Fachada do Museu Nacional. Foto: Gabriela Martin
Fachada do Museu Nacional. Foto: Gabriela Martin

Há oito anos, em 2 de setembro de 2018, o Museu Nacional, o maior museu de história natural e antropologia da América Latina, era consumido pelas chamas. O incêndio destruiu cerca de 80% de seu acervo, que reunia mais de 20 milhões de peças. Desde então, a equipe da instituição reúne esforços para reconstruir o local e oferecer uma nova experiência ao público. 


A restauração de peças fundamentais do acerto, a descoberta de camadas arquitetônicas ocultas e a chegada de novos itens fazem parte desse processo que transforma a perda em um marco de resiliÊncia e inovação científica. A reabertura completa, inicialmente prevista para 2026, foi adiada para 2029. Enquanto isso, o museu mantém suas atividades com exposições temporárias para os visitantes.


A arquitetura oculta do palácio 


Apesar da perda irreparável, os danos às estruturas internas revelaram camadas históricas da construção imperial encobertas há décadas. O relatório mais recente do processo de reconstrução destaca evidências de que o sistema de água era mais refinado e complexo do que se imaginava, a exemplo de uma canaleta subterrânea revestida com pedra de cantaria, identificada no Bloco 3.


Durante o processo de reconstrução, também foram descobertas pinturas e revestimentos originais do palácio, que antes estavam cobertos por camadas de tinta aplicadas ao longo dos anos. É o caso das pinturas decorativas achadas na sala do meteorito Bendegó, uma técnica artística ilusionista que imita ranhuras de colunas, um estilo decorativo muito difundido na época. “A sala havia sido pensada originalmente com outro padrão estético. A partir da descoberta desses elementos, abrimos uma discussão técnica para avaliar como incorporá-los ao novo projeto”, explica Larissa Graça, gestora técnica e estratégica do Projeto Museu Nacional Vive. 


Para a gestora, apesar da perda causada pelo incêndio, escavar o prédio se tornou uma oportunidade de descobrir novas perspectivas históricas no Palácio de São Cristóvão. “O incêndio, apesar de ter sido uma grande tragédia, trouxe uma oportunidade única de conhecer a história do prédio de uma outra forma. O fato de terem sobrevivido apenas as fachadas possibilitou a realização de escavações arqueológicas que permitem compreender melhor a história da construção”, reflete. Essas descobertas permitem incorporar ao novo projeto elementos que aproximam o bloco histórico da sua formação original.


Foto: Felipe Cohen / Museu Nacional Vive
Foto: Felipe Cohen / Museu Nacional Vive

Logo após o incêndio, as frentes de trabalho do Paço de São Cristóvão priorizaram ações emergenciais de estabilização estrutural e o resgate de acervos. Diante da destruição dos telhados e lajes, medidas rigorosas foram implementadas para proteger os elementos artísticos e ornamentos históricos que resistiram ao fogo. Os anos de 2019 e 2020 foram  dedicados ao desenvolvimento de projetos técnicos, viabilizando o início das obras de restauração das fachadas e coberturas em 2021, a começar pelo Bloco 1. 


Com a conclusão do Bloco 4, o trabalho de reconstrução das fachadas está na reta final. O próximo passo será a licitação das obras internas, após os projetos executivos serem aprovados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). No entanto, Larissa explica que, para que as reaberturas parciais com exposições temporárias fossem viabilizadas, algumas etapas foram antecipadas para receber visitantes no interior do edifício. Um exemplo é a construção da claraboia no Bloco 1, permitindo adiantar determinadas instalações que garantem a possibilidade de adentrar o prédio.


O trabalho de resgate do acervo e o pioneirismo científico


Diante da dimensão do incêndio e da complexidade dos materiais que o museu abrigava, a equipe arqueológica lidou com uma série de desafios nunca antes enfrentados. Murilo Bastos, bioarqueólogo do Museu Nacional, contou ao Rampas como o processo de resgate exigiu novas adaptações no trabalho. “A metodologia aplicada foi uma mistura de escavação com salvamento, algo que nunca realizamos antes. Isso nos obrigou a pensar em melhores protocolos de trabalho, desde a escavação, peneiração, documentação, higienização, tratamento e acondicionamento. O acervo resgatado ainda será estudado por  muitos anos”, explicou.


Além dos achados arquitetônicos, o resgate dos escombros se tornou um marco de inovação científica. Na área de Antropologia Biológica, por exemplo, pesquisadores criaram métodos de análise química e molecular para estudar os ossos das múmias encontradas. Como o calor extremo destruiu as caixas de madeira e os tecidos externos que envolviam as ossadas, os cientistas ganharam acesso direto aos ossos, que até então permaneciam intocados, permitindo somente estudos via tomografia. Hoje, cientistas da Universidade do Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de Coimbra usam espectroscopia avançada e feixes de nêutrons para estudar a composição subatômica dos ossos resgatados.


A partir desses novos métodos, os cientistas conseguem mapear exatamente a qual temperatura cada parte do esqueleto foi submetida durante o incêndio. Isso ajuda a entender a dinâmica do desastre que ocorreu e como o calor se distribuiu pelas salas do Museu Nacional. Além disso, essa pesquisa está gerando um banco de dados inédito para a ciência forense internacional. Os métodos desenvolvidos com as múmias servem para ajudar na identificação de vítimas humanas em desastres modernos que envolveram fogo extremo, onde os tecidos foram carbonizados e o DNA foi destruído. 


Quanto ao acervo original, apesar da perda de grande parte das peças no incêndio, foi possível resgatar algumas peças como partes do crânio de Luzia, o fóssil mais antigo da América, e o escaravelho coração da Sha-Amun-en-su – um amuleto ritualístico que era colocado sobre o peito da pessoa mumificada para proteger sua alma no além. A peça foi um presente a Dom Pedro II, dada pelo quediva do Egito, Ismail Paxá, em 1876. O imperador guardava a relíquia em seu gabinete pessoal no Palácio de São Cristóvão e, surpreendentemente, o amuleto foi resgatado intacto em meio às cinzas após o incêndio. “Tê-lo encontrado foi algo bem reconfortante e nos deu esperança para continuarmos o  trabalho”, relatou Murilo.


Foto: reprodução /site: ANBA
Foto: reprodução /site: ANBA

Após o resgate, parte das peças recuperadas passa por tratamento no Laboratório Central de Conservação e Restauração do Museu Nacional. Já outros itens dependem de cooperações internacionais devido à complexidade dos danos. Foi o caso da obra de arte da Roma Antiga 'Dragão e Dois Golfinhos', pertencente à Coleção Imperatriz Teresa Cristina. A obra resgatada de Pompeia, cidade italiana destruída pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 depois de Cristo, foi encontrada fragmentada em 156 partes nos escombros do incêndio do Museu.


Afresco ‘Dragão e Dois Golfinhos’ sendo restaurado. Foto: Marie-Claire Canepa/CCR  La Venaria Reale 
Afresco ‘Dragão e Dois Golfinhos’ sendo restaurado. Foto: Marie-Claire Canepa/CCR  La Venaria Reale 

O novo museu nacional para 2029 


Um novo Museu Nacional se desenha para o público que aguarda sua reabertura. A área de exposições será triplicada, alcançando sete mil metros quadrados na reabertura total da instituição, prevista para 2029. Esse novo horizonte se desenha a partir de uma intensa recomposição de acervo que, segundo a museóloga Thais Mayumi, da Diretoria Adjunta de Integração Museu e Sociedade, avança por meio da restauração de peças resgatadas, de doações e de parcerias nacionais e internacionais. "Estamos trazendo destaques como o Manto Tupinambá, vindo da Dinamarca, registros de comunidades tradicionais brasileiras, fósseis de seres extintos e espécimes representativos da fauna mundial", pontua a especialista. 


A expansão do acervo ganha força com a iniciativa “Campanha Recompõe”, lançada em setembro de 2021 para recuperar e recompor o acervo científico e cultural, que já recebeu mais de 14 mil peças doadas, segundo os últimos dados divulgados. Paralelamente, as equipes enfrentam desafios na reformulação das exposições, que vão desde a conservação de acervos fragilizados pelo incêndio até a reconstituição narrativa de coleções que sofreram perdas irreparáveis. 


No campo da segurança, o novo projeto adota rigorosos padrões de gestão de riscos, destacando-se pela transferência dos núcleos críticos de eletricidade, ar-condicionado e monitoramento para o Anexo Alípio de Miranda Ribeiro. Além disso, o edifício conta agora com sistemas automatizados de detecção e combate a incêndios, o que reduz as principais fontes de risco de um novo incêndio no palácio.


Comentários


O site Rampas é um projeto criado por alunos de jornalismo da Uerj, sob supervisão da professora Fernanda da Escóssia.

©2025 por Rampas.

bottom of page