Outubro Rosa: a arte como apoio para mulheres com câncer
Por meio de teatro, coral, passeios culturais e oficinas, projeto APPA promove acolhimento e novas possibilidades para pacientes e familiares durante e após o tratamento
Por: Ana Beatriz Pereira

Antes do câncer, Valquiria nunca tinha subido em um palco. Em breve, vai estrear uma peça no Teatro Miguel Falabella. “Onde que eu ia fazer isso? Nunca”, diz. “E pra te falar a verdade, tudo isso depois do câncer.” Ela é uma das mulheres atendidas pelo APPA, Amigas do Peito por Aí, instituto no Rio de Janeiro que oferece teatro, coral, passeios culturais e oficinas a pacientes e ex-pacientes de câncer. Segundo a fundadora, Jô Monteiro, cerca de 5 mil mulheres estão cadastradas no projeto.
O câncer de mama é um dos mais incidentes entre as brasileiras: segundo a Estimativa de Incidência de Câncer no Brasil, lançada pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), cerca de 74 mil novos casos eram esperados por ano no país entre 2023 e 2025. Diante de um diagnóstico que transforma a vida e a rotina das pacientes, é muito importante ter uma rede de apoio. Para muitas mulheres, essa rede de apoio é encontrada em pessoas que passaram ou estão passando pela mesma experiência.
O APPA, Amigas do Peito por Aí, é um instituto que oferece atividades culturais e suporte para mulheres que passaram por algum tipo de câncer. A iniciativa começou com Jô Monteiro, em 2009, depois que ela recebeu o diagnóstico de câncer de mama e percebeu que se sentia melhor por meio da arte. A partir da própria experiência, decidiu levar essa possibilidade para outras pessoas. Jô conta que sua formação em turismo e a relação de sua família com a arte contribuíram para que encontrasse nas atividades culturais uma forma de enfrentar o tratamento:
“Ao longo do meu tratamento, isso também me ajudou muito. Eu tentava manter a minha rotina dentro do possível, mesmo no período de quimioterapia. Quando podia, eu tava numa peça, tava assistindo algum espetáculo, tava em alguma exposição. Então isso também me ajudou. E o desejo de voltar a fazer alguma coisa diretamente com a arte foi nascendo dentro de mim.”
Ela e seu marido começaram a levar a arte para a sala de espera das sessões de quimioterapia. Ambos já tinham formação em arte e, ao perceberem como essas atividades faziam bem para Jô, começaram a pensar em formas para levar isso para outras mulheres.
“Convivendo com outras mulheres, outras pessoas, acompanhantes, eu vi que essa vivência não era realidade de todo mundo, né? E por que não proporcionar isso pra mais gente, isso que faz tão bem pra gente, estender para outras pessoas? E daí que veio a ideia”, Sílvio, seu marido, explica.
Inicialmente conseguiram, com ajuda de uma amiga de Jô que trabalhava no teatro, uma visita ao Teatro Riachuelo, levando 40 mulheres para assistir a um espetáculo. A experiência teve um retorno positivo entre as participantes e, a partir daí, o projeto passou a ampliar as atividades culturais oferecidas. O instituto não tem fins lucrativos e se sustenta por meio de doações e da venda de produtos, como camisetas e canecas. Durante o Outubro Rosa, a instituição também busca parcerias com empresas para arrecadar doações.
Atualmente, além dos passeios culturais, o instituto oferece aulas fixas de teatro e coral. Para as participantes, ter esse espaço para atuar, cantar e se divertir é uma parte muito importante no processo de enfrentamento do tratamento.Uma das integrantes do APPA, que utiliza o nome artístico Crystal Vick para divulgar suas poesias no Instagram, falou um pouco sobre esse processo: “O acolhimento é a primeira coisa que dá força para gente. A cultura que eles levam a gente para conhecer. Eu sou uma pessoa que gosto de arte, já escrevo, então a aula de teatro, aula de dança, presença em peças teatrais e eventos culturais, ajudam em tudo, porque eu, por exemplo, esse ano que eu entrei, eu estava ainda em tratamento, então era um momento que eu esquecia aquilo.”
Nem todas as participantes estão envolvidas nas atividades de coral e teatro: muitas também participam dos passeios e oficinas oferecidos pelo instituto, por exemplo, as oficinas de crochê e artes visuais. E apesar de a grande maioria dos participantes ser formada por mulheres, o instituto não é exclusivamente feminino. Alguns homens também participam, principalmente dos passeios culturais.
A ideia principal do instituto é fortalecer a rede de apoio das pacientes e mostrar que a vida vai além do diagnóstico. O marido de uma das integrantes do instituto, Antonio Marcos Ferreira, conta que começou a acompanhar os ensaios para estar ao lado da esposa e acabou se tornando membro do coral. “Eu decidi acompanhá-la [...] e gostei. [...] Quando a Jô me convidou para participar do coral, no começo eu fiquei sem jeito, mas agora eu já tô acostumado e estou gostando bastante.”

Além da rede de apoio, as aulas de teatro, coral e oficinas oferecem às participantes um espaço de segurança e liberdade que contribui para que elas se sintam capazes de seguir em frente. As atividades culturais também se tornaram espaços de descoberta para muitas participantes. Algumas começaram a atuar depois do diagnóstico e passaram a enxergar novas possibilidades para sua vida, como é o caso de Valquiria Arantes. Ela conta: “Nossa, o projeto é maravilhoso. A gente descobre que a gente pode ser atriz, que a gente pode ser coralista, a gente pode ser tudo, tudo que a gente quiser.” Depois de entrar para o instituto, Valquiria começou a atuar e estreou, no dia 3 de outubro, na peça As Aventuras de Emília, em que interpretou Dona Benta, no Teatro Miguel Falabella. “E hoje assim, eu vivo, tanto que eu vou estrear no teatro do Miguel Falabella. Onde que eu ia fazer isso? Nunca. E pra te falar a verdade, tudo isso depois do câncer.”
O acolhimento acontece nos dois sentidos. Além de receberem apoio, algumas participantes também encontram no instituto uma oportunidade para ajudar outras mulheres. Maria Leonor diz que se sente bem ao encontrar no instituto um lugar para cuidar umas das outras:
“Eu encontrei um lugar onde eu posso estar auxiliando pessoas, [...] as pessoas estão precisando muito de amor, de alguém que acolha, que abrace.”
Juciara Floriano também afirma que o projeto contribuiu para recuperar sua autoestima e, ao mesmo tempo, despertou nela o desejo de ajudar outras pacientes:
“O projeto faz a gente renascer, porque a gente vê que a gente pode muito mais. [...] Ele mexe com a tua autoestima, ele mostra que você pode, mostra que você tá viva.”
Além do APPA, Juciara participa de outros grupos de WhatsApp onde pode oferecer ajuda a outras pacientes oncológicas. Em uma dessas situações, conseguiu ajudar uma senhora de 84 anos que precisava de tratamento para linfedema. Depois de acionar seus contatos, encontrou tratamento gratuito na faculdade de Bonsucesso, onde a paciente continua sendo acompanhada.
Para quem recebe um diagnóstico de câncer, dúvidas sobre o tratamento, medicamentos e até os próprios direitos podem surgir junto com o medo. Nesse contexto, essa rede construída entre as participantes também funciona como uma forma de compartilhar informações e buscar soluções para dificuldades que aparecem ao longo do caminho.
A própria Juciara fala um pouco sobre isso:
“Eu tive o apoio do instituto o tempo todo: psicólogo, o apoio de estar reunido, de estar em eventos, só coisa boa, de participar de simpósios esclarecendo o que é a doença [...] Então, todo aquele conhecimento que muita gente não tem [...] mostra os nossos direitos: direitos ao INSS, direito à gratuidade de passagem, direito à medicação e muita gente não sabe disso, por incrível que pareça.”
As atividades do APPA vão além dos ensaios e das oficinas, com apresentações realizadas ao longo de todo o ano em hospitais públicos e privados, Clínicas da Família, universidades, teatros, empresas e eventos culturais. Durante o Outubro Rosa, a agenda se intensifica por conta do aumento nos convites. No dia 7 de outubro, o grupo realizou a vernissage de uma exposição no Shopping Barra World. No dia seguinte, participou de um evento da OAB e, no dia 17, na OAB Niterói. A programação inclui ainda um evento na Doce Rio, empresa parceira do projeto, no dia 22 de Outubro. Com essas apresentações, o APPA amplia seu alcance e leva a arte e o acolhimento a diferentes públicos durante todo o ano.
O APPA tem uma função importante para essas mulheres. Jô Monteiro relata que cuidar de todas essas pessoas também é uma forma de cuidar de si. Para as participantes, o instituto foi um ponto importante durante o processo de tratamento, e elas veem o lugar como uma família, na qual estão ali umas pelas outras. Todas as entrevistadas compartilham, além de um diagnóstico, uma vontade de viver além dele. É nesse lugar que o instituto as acolhe.
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