Palco Favela no Rock in Rio abre debate sobre representação periférica no festival
Palco criado para dar visibilidade a artistas de comunidades é alvo de críticas sobre estrutura e organização
Por João Otávio Alves

Entre grandes nomes da música nacional e internacional, o Rock in Rio também reserva espaço para artistas que surgem das periferias brasileiras. Criado para valorizar manifestações culturais associadas às favelas, o Palco Favela passou a integrar a programação do festival na edição de 2019, como um espaço dedicado à produção artística periférica. Idealizado pelo empresário Roberto Medina, criador do evento, o palco conta com elementos como casas coloridas sobrepostas, caixas d'água, roupas penduradas em varais, becos e grafites, referências do cotidiano das favelas, além de cachorros e gatos. Diversos artistas de favela já se apresentaram, mas, para além da visibilidade proporcionada pelo palco, surge uma questão: como essa representação é percebida por quem vive nas favelas?
Para Rayane Marques, moradora de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a experiência de acompanhar os shows do espaço foi marcada não apenas pela programação, mas também pelas condições oferecidas ao público. Presente na edição de 2022, ela afirma que a estrutura não comportava a quantidade de pessoas que procuravam os shows. “Fui no último dia. O público sempre é muito maior do que a capacidade do palco. Isso me irritou muito, porque além de um palco estereotipado, a estrutura é pequena em comparação ao público que vai assistir aos shows que têm lá”, relata. O Palco Favela tem 75 metros de largura por 13 metros de altura, enquanto espaços de maior prestígio, como o Palco Sunset, têm 93 metros de largura e 27,5 metros de altura.
Segundo Rayane, a localização e a estrutura também contribuíram para uma experiência negativa. Ela conta que o espaço é um dos mais distantes em relação aos outros, para além da baixa amplitude de som e da baixa altura do palco. Ao contrário dos demais palcos da Cidade do Rock, o Palco Favela não conta com cobertura, o que dificulta as apresentações. “Lembro que estava chovendo muito no dia e todo mundo no palco estava encharcado”, conta Rayane.
Ela também lembra da apresentação de Lexa, que encerrou a programação do dia 11 de setembro, e afirma que a grande quantidade de pessoas evidenciava as limitações do espaço. Segundo reportagem do G1, o show lotado da cantora merecia um espaço maior que o Palco Favela.
A experiência de Emanoelle Lopes, moradora de Realengo, também na Zona Oeste, apresenta outro aspecto da discussão. Ela esteve na edição de 2026 do Rock in Rio e avaliou positivamente a experiência geral do festival, mas aponta que o acesso ao evento ainda está distante da realidade de muitos moradores de regiões periféricas. “Minha experiência no Rock in Rio foi muito boa, muitas ativações e shows que realmente deixam a experiência muito legal, mas para mim ainda é como furar a bolha, pois sei que muitas pessoas que vêm de onde eu venho não têm a possibilidade de viver esse evento, principalmente pelo valor do ingresso, consumo, deslocamento e outros fatores”, afirma.
O ingresso do Rock in Rio hoje custa a partir de R$ 435 (meia entrada) e R$ 870 (inteira), equivalente a 26,8% e 53,7%.do salário mínimo atual, de R$ 1.621,00.
A dificuldade de acesso apontada por Emanoelle também foi alvo de iniciativas de inclusão durante o festival. Em parceria com o setor de pluralidade da Rock World, o Voz das Comunidades (jornal comunitário nascido no Morro do Alemão) levou 300 crianças e jovens de 20 projetos sociais de diferentes favelas cariocas para conhecer a Cidade do Rock durante o evento-teste do Rock in Rio em 2026. A ação proporcionou aos participantes acesso à estrutura do festival, aos brinquedos e aos shows antes da abertura oficial. Em outra iniciativa, quatro moradores selecionados por sorteio também receberam transporte, acesso VIP e acompanhamento durante a experiência da última edição. As ações buscaram aproximar jovens que, devido aos custos de ingresso, transporte e consumo, dificilmente teriam acesso ao evento.
Apesar de ter aproveitado o evento, Emanoelle não chegou a acompanhar nenhum show no Palco Favela. Para ela, essa escolha também revela uma questão sobre a própria proposta do espaço. “Os artistas que geralmente vão até esse palco são extremamente nichados. Na maioria das vezes cantam trap, rap, funk, reforçando ainda mais um estereótipo que, ao invés de incluir, parece que segrega um pouco tanto o artista quanto o público que escuta esses gêneros”, critica.
A moradora de Realengo também questiona a presença desses artistas nos demais espaços do festival. Segundo ela, os músicos associados à favela frequentemente permanecem concentrados no espaço destinado a essa temática, mesmo quando poderiam ocupar outros palcos. Para Emanoelle, a questão da representatividade está justamente na possibilidade de ultrapassar o espaço destinado especificamente à favela. “Eu, como uma pessoa periférica, não me sinto representada. O caminho realmente não é esse. Nós podemos estar em todos os espaços. Isso sim é pertencimento e representatividade.”
A crítica encontra eco em uma declaração recente de MC Cabelinho, em entrevista à Rádio Metropolitana FM. Após se apresentar no Palco Favela ao lado de TZ da Coronel na edição de 2026, o artista defendeu que músicos vindos das periferias também tenham espaço no Palco Mundo, principal palco do festival. “Nós queremos o Palco Mundo. Nós temos potencial. Favelado tem potencial também para estar no Palco Mundo”, afirmou.
Em outra declaração, Cabelinho ponderou que a existência do Palco Favela é positiva, mas questionou a concentração de artistas periféricos naquele espaço. Ainda citou outros artistas que, segundo ele, também poderiam ocupar o palco principal.
A fala de Cabelinho desloca a discussão: o problema não seria necessariamente a existência de um espaço dedicado à favela, mas a possibilidade de que esse espaço se transforme em um limite. Se artistas periféricos possuem potencial para ocupar grandes palcos, por que sua presença precisa estar associada a um palco específico?
Para Rayane, a própria configuração do espaço contribui para uma percepção estereotipada da favela. Sua crítica não se limita à estrutura física, mas também à maneira como o espaço é apresentado dentro do festival, com estrutura inferior à palcos de maior prestígio.
Apesar de construir uma imagem que reproduza as favelas de maneira afetiva, o Palco Favela também abre espaço para o seguinte questionamento: seria ele um espaço de visibilidade ou limitação à cultura de favela?
.png)

Comentários