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Para garantir renda, jovens enfrentam rotina de panfletagem nas campanhas eleitorais

há 11 minutos
4 min de leitura

Horas em pé, recusas e exposição ao sol fazem parte do trabalho temporário de distribuição de materiais políticos nas ruas


Por: Patrick Veloso


Renato Moura no calçadão de Bangu - Foto: Leonardo Souza
Renato Moura no calçadão de Bangu - Foto: Leonardo Souza

Uma mão segura uma pilha de panfletos. A outra se estende na direção de quem passa. Rapidamente, o eleitor decide se aceita ou não o papel. A cena se repete centenas de vezes durante o dia. Em meio ao movimento, jovens trabalhadores ocupam calçadas, saídas de estações e pontos de grande circulação para distribuir materiais de candidatos durante o período eleitoral. A atividade parece simples para quem observa de longe, mas para quem está do outro lado da abordagem são horas em pé debaixo do sol ou exposto à chuva, repetindo a mesma ação e recebendo, na maioria das vezes, pouca atenção.


Entre os trabalhadores que ocupam essa função estão jovens que encontram na campanha uma oportunidade temporária de renda. Nem todos, porém, estão ali por identificação com o candidato que divulgam.


Para muitos que estão iniciando a vida financeira, conseguir uma oportunidade, ainda que não fixa, pesa na decisão de ajudar um político, mesmo que não seja sua preferência de voto. De acordo com dados do PNAD Contínua do IBGE, 40,6% das pessoas ocupadas entre 18 e 24 anos estavam na informalidade no quarto trimestre de 2024. A taxa era superior à registrada entre trabalhadores de 25 a 39 anos, 34,9%. A dificuldade de inserção no mercado formal transforma atividades temporárias e sem vínculo empregatício em alternativas de geração de renda para essa população.


Os dados não medem especificamente a quantidade de jovens que trabalham com panfletagem política. Não há um levantamento nacional que identifique quantos trabalhadores são contratados para essa função no período eleitoral. Porém, a partir dos números, observa-se o contexto que esse tipo de atividade aparece: jovens que encontram dificuldades para acessar vagas de emprego e precisam realizar diversos tipos de serviço para suprir despesas. A própria estrutura de campanha contribui para essa característica: a demanda surge em um período específico, aumenta e termina depois das eleições.


“Trabalho cinco dias por semana e recebo R$ 70 pela diária. Me ajuda bastante, já consegui comprar algumas coisas que queria”, disse um estudante universitário de 20 anos, que prefere não se identificar, distribuidor na Tijuca e adjacências. Ele complementa afirmando que a atividade não atrapalha seus estudos e, apesar de ser cansativa, seu retorno financeiro faz valer a pena.


Trabalho antes da militância


A reação dos eleitores à distribuição varia. Alguns pegam sem olhar. Outros recusam antes mesmo de saber qual candidato está sendo apresentado. Há ainda quem pare para reclamar da situação da cidade, fazer perguntas ou discutir. Não existe controle sobre o público.


Um estudante de publicidade morador de Realengo de 21 anos, que também optou pelo anonimato, conta sobre essas situações: “As pessoas não gostam da figura do político em si, mas nunca aconteceu algo muito radical. As pessoas zombam, provocam, mas não tentam arrumar briga ou algo do gênero comigo.”


A separação entre trabalho e ideologia nem sempre é clara para quem recebe o panfleto. Na rua, o votante enxerga apenas alguém representando a campanha. A relação profissional existente por trás daquela abordagem permanece invisível. Entretanto, apesar da diferença ideológica entre campanhas, as dificuldades enfrentadas nas ruas são semelhantes para todos.


Tanto o trabalhador que distribui material de esquerda quanto o de direita estão submetidos à mesma lógica: abordar pessoas, enfrentar recusas e permanecer durante horas em um mesmo local. No entanto, observa-se que o tratamento dos informais em espectros distintos são diferenciados. Enquanto o personagem da Tijuca trabalha numa escala 5 x 2, recebendo mais diariamente, para um candidato alinhado à esquerda, o de Realengo enfrenta uma semana sem descansos para um político de centro-direita.


Renda média 


De acordo com o Portal Salário, em 2026, panfleteiros que atuam com a carteira assinada recebem, em média, entre R$ 1900 e R$ 2569. Essa variação depende de inúmeros fatores como localidade, formação e política de cargos. Porém, observa-se que em período eleitoral, esse valor não é seguido por conta do caráter informal e imediatista do trabalho. Afinal, uma campanha deve mobilizar muitas pessoas em busca de conquistar mais votos.


No mais, mesmo que afirmem ser uma rotina tranquila, os dois estudantes entrevistados pelo Rampas ilustram cargas horárias e pagamentos distintos entre si. Se na Tijuca o estudante panfleta cinco dias por semana a R$ 70 diários (R$ 1400 por mês), o outro recebe um salário mínimo (R$ 1.621) trabalhando sete dias, aproximadamente R$ 54 diariamente.


O eleitor passa


Para quem recebe um panfleto, a abordagem costuma durar poucos segundos. Para quem trabalha nela, pode representar uma jornada inteira. Enquanto candidatos aparecem em palanques, debates e redes sociais, existe uma base estrutural de trabalhadores responsáveis por levar suas imagens e propostas até o eleitor. Entre eles estão jovens que, naquele momento, carregam mais do que uma pilha de panfletos. Levam uma necessidade financeira consigo que existe independentemente do lado político para o qual trabalham.


Na rua, a diferença entre esquerda e direita está impressa no papel. A questão para o panfleteiro é outra: quanto tempo é possível permanecer em pé, quantas pessoas aceitarão o material e, principalmente, quanto aquela jornada representa no orçamento no fim do mês. A campanha termina, os panfletos deixam de circular, as equipes são desmontadas e os pontos de distribuição esvaziados. Para o trabalhador temporário, fica o retorno do seu trabalho.

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