Pescadores e marisqueiras de Sepetiba lutam para sobreviver em águas cada vez mais rasas
Com o assoreamento e dragagens na baía, trabalhadores relatam jornadas exaustivas, renda curta e um mar cada vez mais inóspito

Onde antes havia águas cristalinas e calmas, que chegaram a servir de cenário para a novela “O Bem-Amado”, hoje há lama. Em Sepetiba, na Zona Oeste do Rio, uma extensa faixa de sedimentos ocupa boa parte da praia e toma conta dos canais, e os mangues avançam a cada ano. A situação se repete em toda a baía, da Barra de Guaratiba ao rio Itaguaí, e quem mais sente são os pescadores e as marisqueiras, que dependem do mar para sobreviver.
Irapuan de Araújo Oliveira, de 64 anos, é presidente da colônia de pescadores Z15 de Sepetiba. Envolvido com a prática desde que nasceu, para ele os principais desafios que os pescadores enfrentam são a diminuição das espécies na região e o assoreamento, que é o acúmulo de terra, areia e lixo no fundo de rios, lagos e córregos, tornando o leito mais raso e dificultando ou impedindo a navegação.
“A região já está muito assoreada, o que dificulta principalmente descer o rio. Com o vendaval que teve essa semana é possível ver muitas árvores caídas pelo leito. Para tirar é difícil, para atravessar é mais ainda, mas infelizmente o pescador tem que dar um jeito de pescar. Um ajuda o outro”, contou Irapuan.
Em entrevista ao jornal O Globo, o Inea (Instituto Estadual do Ambiente) afirmou que o assoreamento ocorre em virtude da erosão e do histórico de ocupação desordenada no local, mas as associações de pescadores apontam para outra causa: as dragagens, isto é, a retirada de sedimentos do fundo de cursos de água. As dragagens são realizadas para desobstruir os caminhos das embarcações dos portos e, segundo os trabalhadores, o despejo desse material não evita que a maré traga os sedimentos de volta.
Outro fator que compromete a pesca são as termelétricas flutuantes, localizadas próximas ao porto. Elas usam a água do mar para se resfriar, e o calor absorvido por condução térmica faz com que ela volte alguns graus mais quente.
“As termelétricas afetam o ecossistema local. Por exemplo, o ruído das máquinas espanta o peixe robalo, que vinha para desovar nesses manguezais. Então, não é só um problema imediato, porque o que está acontecendo hoje afeta a pesca daqui a quatro anos, quando o robalo que nasceria hoje seria capturado”, explica ao Rampas César Suypeene, advogado da colônia Z15, morador de Sepetiba e entusiasta da causa.
A preocupação com os danos causados pelos portos tende apenas a aumentar, especialmente com a construção do novo Porto do Meio, um novo terminal portuário em construção em Itaguaí, ao norte da Baía de Sepetiba. O projeto conta com um orçamento de cerca de R$3,5 bilhões e capacidade prevista para o transporte de até 15 milhões de toneladas de minério de ferro por ano.
“‘Mas não tem impacto ambiental’, dizem. Só o fato de estar ali onde tinha uma procriação de espécie já é um impacto ambiental. A iluminação que ela produz é um impacto ambiental, a poluição sonora também”, afirma Bárbara Marques, presidente da Associação de Pescadores, Caranguejeiros, Maricultores e Artesãos da Baía de Sepetiba.
Em seu site, o Porto do Meio afirma que o terminal “encontra-se em fase avançada de licenciamento ambiental junto ao Instituto Estadual do Ambiente (INEA)” e que, em dezembro de 2025, “o empreendimento obteve o aceite para análise dos Estudos de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), bem como do Plano Básico Ambiental (PBA).”
Procurada pelo Rampas sobre os impactos do projeto na vida dos pescadores e marisqueiras, a empresa encaminhou um release detalhando a atual fase do Porto do Meio. A Cedro Participações, empresa responsável pelo empreendimento, informou que obteve, em 13 de outubro, a aprovação da Comissão Estadual de Controle Ambiental (CECA) para a emissão da Licença Ambiental Integrada do terminal. Segundo eles, nesta fase inicial a licença contempla a movimentação de um volume inferior a 15 milhões de toneladas por ano.
As obras devem durar três anos e incluem serviços civis, dragagem, montagem de equipamentos portuários e montagem eletromecânica, com a geração de cerca de 3 mil empregos diretos e indiretos no pico. Em operação, o terminal empregará 256 pessoas diretamente. A companhia também afirma que o terminal será aberto a mineradoras de médio porte, além de atender à produção da própria Cedro.
Atualmente, a baía já possui áreas de exclusão em que barcos pequenos não podem se aproximar, delimitadas pelos portos. Com a criação de mais um porto, essas áreas se expandem, criando mais um espaço onde os pescadores não podem exercer seu serviço.
Devido a essas demarcações e a poluição, muitos trabalhadores se deslocam até a Costa Verde para pescarem com a rede. Irapuan é uma dessas pessoas e relata que leva cerca de três horas e meia para conseguir fazer a viagem. Isso também influencia nos custos do trabalho: com a distância, se gasta mais combustível, demora mais para começar o dia de trabalho e para terminá-lo também.
“Na verdade, o pescador precisava de mais ajuda. Tinha que existir um subsídio público para a compra de barco e rede, e apoio para a construção, nas colônias e nas associações, de câmaras frigoríficas com fácil acesso para caminhões grandes virem buscar esse pescado”, afirma César. “Eles querem só um dinheiro na mão do pescador, não querem programas de requalificação, programas ambientais verdadeiros de suporte. O que a colônia quer hoje é um píer, para que o pescador possa trazer o seu pescado, a desobstrução dos canais e financiamento para compra de insumos.”
Outro ponto para o qual Irapuan chama atenção é a jornada exaustiva de trabalho. Para ele, um auxílio governamental ajudaria o pescador a ter dias de descanso, já que atualmente precisam sair para pescar todos os dias. “Não temos sossego nem para ficar com os filhos. A vida do pescador é isso, da casa para o mar e do mar para casa. Mesmo assim, não temos dinheiro para gastar. Para falar a verdade, é difícil sobrar algum.”
Ele conta que o único lazer na região é um campinho onde jogam futebol. “Se perguntar ‘quem é pescador aqui?’, os dois times levantam a mão. Nasce filho de pescador, vira pescador. Não tem outra escolha. Estudar, fazer cursinho para poder morar em outro lugar e fazer faculdade, não dá.”

Outra dura realidade é a das marisqueiras, que, assim como os pescadores, passam a prática de geração para geração. As digitais falhadas em seus dedos marcam uma história de anos de um trabalho muito desvalorizado, mas que costuma ser a única fonte de renda. Como os mariscos são pequenos, é necessário coletar uma grande quantidade para depois tirar a lama, limpar os resíduos que ficam colados, cozinhas, lavar de novo, pesar e vender. Por se tratar de um processo extenso, a atividade costuma ser feita em grupo.
Marta Mendes tem 53 anos, mas é marisqueira há 40. Tendo acompanhado a mudança de cenário em Sepetiba, ela conta que hoje a água só vai até a metade de onde alcançava antigamente. Quando perguntada sobre a poluição, disse: “Eu não entendo de poluição, mas aqui só dá ruim quando aparecem umas espumas que vem batendo na água e encostam na beirada, mata os mariscos”.
Ana da Silva, de 54 anos, mora em Santa Cruz, mas vai a Sepetiba tirar mariscos. Ela conta que no ano anterior não conseguiram coletar nenhum, todos haviam morrido. “Ninguém sabe se foi a água, alguma coisa da fábrica de Itaguaí ou se foi óleo. Mas graças a Deus esse ano teve bastante.”

Foi pensando nas mulheres da comunidade, que enfrentam vulnerabilidade financeira e emocional, principalmente as pescadoras, que Bárbara Marques idealizou um projeto de capacitação em artesanato com matérias-primas naturais. Nas oficinas, elas aprendem a fazer biojoias e sabonetes fitoterápicos e podem transformar o aprendizado em uma renda extra. O projeto nasceu com foco nesse grupo, mas hoje recebe também o público em geral.

“A gente espera que o amanhã seja melhor do que hoje. Pra mim, todo dia é sagrado, agradeço muito a Deus, mas espero não ver os outros se sacrificando para ter o que comer, para comprar alimento para os filhos, para os netos”, desabafa Irapuan.
Um acordo firmado em junho deste ano pelo Ministério Público Federal, Inea e a PortosRio (antiga Companhia Docas, autoridade portuária responsável pela gestão dos portos públicos do Estado) conseguiu converter R$ 69,5 milhões de multas judiciais por danos causados em obras de dragagem em projetos básicos para a recuperação ambiental e social da Baía de Sepetiba. O dinheiro foi revertido para a saúde pública, saneamento básico e segurança alimentar, compondo o Plano de Desenvolvimento Costeiro de Sepetiba.
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