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Quando a negligência dos tutores compromete saúde dos pets

há 2 dias
7 min de leitura

Denúncias de maus-tratos sobem no estado do Rio; hábitos comuns podem causar sofrimento e  problemas de saúde nos animais


Por Carolina Coutinho


Uma família decide fazer um bate-e-volta durante o verão, e para isso, deixa um cão idoso em um quarto fechado, com água e comida. Porém, o passeio de um dia se desdobra em um fim de semana inteiro fora de casa. Ao retornar, os tutores encontram o animal já debilitado e precisam levá-lo a uma clínica veterinária. Poucos dias depois, o animal morre em decorrência de complicações resultantes de hipertermia (temperatura alta demais) e desidratação, agravadas pela idade avançada.


Manter cães em isolamento em situações de calor excessivo, e/ou escassez de água e alimento pode ter graves consequências para sua saúde - Reprodução: Magnific
Manter cães em isolamento em situações de calor excessivo, e/ou escassez de água e alimento pode ter graves consequências para sua saúde - Reprodução: Magnific

Esse caso pode parecer um descuido isolado, mas é mais uma das diversas histórias de negligência que chegam à clínica da médica-veterinária Juliana Jeunon – formada pela UFF e especialista em endocrinologia de cães e gatos pela Anclivepa Rio. Segundo ela, o mais comum em sua rotina profissional são pequenas negligências do cotidiano, principalmente relacionadas à prevenção, como a falta de vacinação ou de acompanhamento veterinário e o abandono de tratamentos contínuos. 


“São coisas pequenas, mas acabam culminando em problemas mais sérios. A falta de prevenção faz com que muitas vezes esses pacientes cheguem para atendimento já em situação crítica. Frequentemente o quadro clínico já não pode mais ser revertido e tudo isso poderia ter sido evitado se a saúde deles tivesse sido observada com mais atenção”, alerta a veterinária.


Na rotina da veterinária Juliana Jeunon, o atendimento a pets que sofrem com a negligência dos tutores é frequente - Fonte: Arquivo Pessoal / Juliana Jeunon
Na rotina da veterinária Juliana Jeunon, o atendimento a pets que sofrem com a negligência dos tutores é frequente - Fonte: Arquivo Pessoal / Juliana Jeunon

O estado do Rio de Janeiro vive um cenário de crescimento alarmante no número de denúncias de maus-tratos aos animais nos últimos anos. Em 2025, o Linha Verde – programa do Disque Denúncia exclusivo para relatos de crimes contra o meio ambiente, maus-tratos aos animais e danos à fauna e à flora – registrou recorde histórico, com 17.305 denúncias. (Até então, o maior registro havia sido em 2024, com 13.554 denúncias.) Só no 1º trimestre de 2026, o número já é de 5.600 chamados, o que representa um aumento de 51% em relação ao 1º trimestre de 2025.


Para o veterinário Sylvio Cláudio Neto, técnico do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes (Ibrag) e doutor pela Uerj, o aumento nas ocorrências registradas pode estar relacionado à maior conscientização da sociedade e à existência de canais mais efetivos de denúncia. Apesar disso, ele ressalta que não é possível descartar a possibilidade de um aumento real dos casos sem estudos específicos. 


Ainda assim, trata-se de, em média, 62 denúncias por dia no estado, com a capital liderando o ranking com 9.239 registros em todo o ano de denúncias em 2025. Para efeitos de comparação, a segunda cidade do RJ com maior número de registros foi Nova Iguaçu, com 1.138.


Apesar do cenário de aumento, há avanços no âmbito jurídico, como o surgimento da Lei Estadual nº 11.096/2026, que instituiu o Novo Código Estadual de Direito dos Animais no Rio de Janeiro – o qual, entre outras medidas, reconhece legalmente os animais como seres sencientes, ou seja, dotados de sensibilidade, capazes de sentir dor e emoções – de autoria dos deputados  Luiz Paulo (PSD)  e  Carlos Minc (PSB), que, aliás, encerra um hiato fluminense de 24 anos sem modernização legislativa ao substituir o código obsoleto de 2002. 


Segundo Sylvio, ao criar regras e condutas, a Lei nº11.096/RJ facilita o entendimento e padroniza os critérios mínimos esperados de um tutor de animais. “Com isso, a negligência deixa de ser apenas uma questão de opinião ou de ‘jeito de criar’ e passa a ser responsabilizável e punida de acordo com os critérios da lei”, defende o veterinário.


O Art. 6º da Lei nº11.096/RJ lista todos os direitos dos animais, sendo os primeiros o respeito à vida, à dignidade individual e à integridade de suas existências física, moral, emocional e psíquica. Assim, garantir bem-estar a um pet vai muito além de atender às primeiras necessidades, como oferecer alimento, água e abrigo: exige saúde preventiva, espaço adequado e um vínculo baseado no respeito e na confiança, sem adestramento por medo.


Saúde e prevenção


No tema da saúde preventiva dos pets, um fator muito negligenciado é a vacinação, principalmente em decorrência da falta de informação. Recentemente, a veterinária Juliana Jeunon perdeu uma paciente para a cinomose – doença viral grave, muitas vezes letal, que causa alterações neurológicas nos cães – pois os tutores acreditavam que apenas o protocolo vacinal pediátrico era suficiente e dispensaram as vacinas na fase adulta. “[A doença] poderia perfeitamente ter sido evitada se ela tivesse recebido a vacina anual dela, então são coisas que acontecem com muita frequência na nossa rotina, infelizmente”, lamentou a veterinária.


Por isso, ainda segundo Juliana, a responsabilidade de conscientização e de informar quanto à saúde, prevenção e bem-estar dos pets aos tutores também faz parte do trabalho do profissional veterinário: “Existem diversos erros que são decorrentes de falta de informação que podem ser evitados. E isso é culpa dos médicos veterinários também, muitos tutores desconhecem as doenças. Não sabem o que existe, quiçá que precisam prevenir. E isso é algo que eu vejo que tem que ser falado. Tem que ser discutido desde o dia um, desde a primeira consulta de rotina pediátrica daquele cachorro, o tutor precisa estar ciente de que tais doenças existem e que elas precisam ser tratadas.”


Quanto à prevenção, Juliana também deixa um alerta aos tutores sobre a alta de casos de leishmaniose na região do Grande Méier, onde trabalha. A leishmaniose é uma doença causada por um protozoário e transmitida pela picada do mosquito palha. Ela gera complicações de pele, mas também em diversos outros órgãos, podendo gerar problemas de medula óssea e questões renais.


Os cães são reservatórios da leishmaniose, doença que pode matar. Foto: Reprodução: Magnific
Os cães são reservatórios da leishmaniose, doença que pode matar. Foto: Reprodução: Magnific

“E é muito importante lembrar que ela é uma zoonose, então ela pode ser transmitida para seres humanos. Por esse motivo é muito importante que a gente faça o controle e tratamento dos pacientes. Isso não pode ser negligenciado de jeito nenhum, porque já está sendo um problema grande na esfera da medicina veterinária. Mas pode acabar virando um problema grande na esfera da medicina humana também”, adverte a profissional.


Maus hábitos e suas consequências


Além das negligências quanto à manutenção ativa da saúde dos cães, há também uma série de maus hábitos dos tutores que implicam consequências físicas e comportamentais a longo prazo.


O bem-estar animal tem como pilar o princípio das cinco liberdades: livre de fome e sede, livre de desconforto, livre de dor e doenças, livre de medo e estresse e livre para exercer o comportamento natural da espécie. Essas duas últimas liberdades tendem a ser as mais negligenciadas, principalmente em um contexto de humanização excessiva dos animais – um comportamento que pode ser confundido com cuidado e carinho, mas que, na realidade, pode prejudicar o bem-estar dos pets.


A humanização dos pets pode parecer inofensiva e até ser confundida com cuidado e carinho, mas impacta diretamente no comportamento dos animais. Essa postura pode gerar problemas de medo e estresse excessivo, além de alterações comportamentais, muitas vezes normalizados pelos tutores. Sobre isso, Juliana relata: “A gente vê animal que tem lambedura excessiva de parte do corpo, coceiras sem explicação, comportamentos de correr atrás do próprio rabo, de destruir e/ou comer objetos em excesso. Tudo isso pode ser um reflexo dessa parte.”


Outros comportamentos que chamam a atenção para um possível cenário de sofrimento animal são: vocalização em excesso, alteração no apetite, apatia, fezes e urina em locais inadequados, sono excessivo, postura agressiva, diminuição da imunidade e até  o aparecimento de doenças oportunistas. 


Nesse sentido, existem sequelas permanentes com relação a questões comportamentais – principalmente quando estas geram impactos físicos, como a Síndrome de Pandora, condição associada ao estresse em gatos que pode provocar problemas no trato urinário, entre outras alterações físicas. “Felizmente o trabalho de adestramento [feito por] médicos veterinários especializados no estudo comportamental costuma atenuar esses problemas de forma bastante eficiente também”, diz a veterinária.


O veterinário Sylvio Neto apontou para alguns impactos físicos iniciais que costumam evidenciar determinadas negligências dos tutores, como: perda de peso, magreza extrema ou obesidade por alimentação inadequada, pelagem opaca, queda de pelo por deficiência nutricional ou parasitas (pulgas, carrapatos, sarna), otites, infecções de pele e até doenças dentárias (tártaro, gengivite).


A perda de peso e apatia denunciam possíveis estresses, e possibilitam o surgimento de  doenças oportunistas no organismo já debilitado - Reprodução: Magnific
A perda de peso e apatia denunciam possíveis estresses, e possibilitam o surgimento de  doenças oportunistas no organismo já debilitado - Reprodução: Magnific

Ultimamente, nas redes sociais, têm viralizado vídeos e memes de cães e gatos obesos. A obesidade em pets é uma característica lida como “fofa”, mas é extremamente prejudicial para a qualidade de vida dos pets. Muitas vezes, ela é fruto de alimentação inadequada ou de má qualidade, mas, principalmente, de um estilo de vida sedentário. A veterinária Juliana explica: “Tem gente que até se orgulha e acha que está fazendo um bem para o cachorro ao não passear e ver a rua como ameaça. Isso não é uma verdade, é importante proteger dos perigos da rua, sim, mas isso a gente faz vacinando, fazendo o intervalo correto de preventivo de carrapato e pulga. Mas é importante ir pra rua, é importante fazer atividade física, é importante ter esse estímulo ambiental e ver outras coisas fora de um apartamento, faz bem para a mente daquele cachorro.”


 A exposição a outros ambientes e contato com outros cães são essenciais para o bem-estar animal - Reprodução: Magnific
A exposição a outros ambientes e contato com outros cães são essenciais para o bem-estar animal - Reprodução: Magnific

A falta de informação é um problema real, mas não é capaz de eximir tutores da totalidade da culpa pelo sofrimento dos pets negligenciados. Segundo Sylvio, existe sim um limite em que o desconhecimento deixa de ser uma justificativa: “Ao adquirir um animal, a pessoa deve buscar conhecimento necessário, e o ideal seria a primeira consulta veterinária onde a maioria das dúvidas serão sanadas. A ausência de procura pela informação ou a falta de ação a um fato informado como a observação de uma pessoa sobre a saúde do animal já parte para um caso de omissão consciente.”


O que todo tutor deveria saber antes de adotar um animal


Para além do óbvio, como fornecer alimentação de qualidade, água limpa, ambiente confortável e cuidar da saúde e do animal com amor, há pequenos erros que tutores cometem e que passam despercebidos até ser tarde demais como:


  1. Material dos potes de comida e água: o ideal são louças, como cerâmica. Aço inox e/ou plástico têm em sua composição aditivos químicos que podem ser disruptores endócrinos e trazer problemas a longo prazo;

  2. Questões de enriquecimento ambiental: para que o pet seja feliz, é importante ter brinquedos, brincar com o pet ativamente, gastar sua energia com passeios na rua etc. Mas, atenção: para gatos, é importante ter ambientes verticalizados, nos quais ele possa subir, descer, e fazer esconderijos;

  3. Tapetes higiênicos ou areia de cor clara: isso permite observar alterações urinárias ou nas fezes, o que auxilia na monitoração da saúde;

  4. Vacina: é necessário fazer vacinação preventiva de pulga, carrapato e verme, no intervalo correto, além de outras, como o preventivo de leishmaniose e de dirofilariose. 





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