Quem ensina um menino a ser homem?
- Lara Soares

- há 1 dia
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Família, escola e internet dividem, sem combinar entre si, a formação da masculinidade de uma geração de meninos, e grande parte desse aprendizado acontece sem que ninguém perceba que está ensinando
Por Lara Soares

Foi a segunda batida em menos de um mês. Na primeira vez, foi Maviane Lima quem perdeu a paciência e xingou o outro motorista, na frente do filho. Na segunda, foi o filho dela, Júlio César, sentado no banco de trás, quem a incentivou a "acabar com a pessoa". Ali, atrás do volante, Maviane entendeu que o menino só devolvia, com naturalidade, o que ela mesma tinha ensinado sem querer, um mês antes.
Coordenadora pedagógica da escola La Salle Rio de Janeiro, onde está desde a fundação, há 17 anos, e mãe de Júlio há quase nove, Maviane chegou à instituição como aluna do UnilaSalle, Centro Universitário La Salle do Rio de Janeiro, com o sonho de atender crianças de comunidades carentes de Niterói. Passou por quase todos os setores, de estagiária a professora regente, até chegar à coordenação pedagógica.
A cena do carro resume uma pergunta que atravessa toda a criação de um menino: quem ensina, de fato, o que é ser homem? Não existe um único professor. Existe uma rede de referências que começa em casa, muito antes de qualquer tela, e segue por gestos tão pequenos que quem os pratica raramente percebe que está formando alguém.
Maviane percebeu isso na própria casa, aos poucos. Ainda grávida, o médico avisou que seria menina. Ela já tinha comprado sapatos, já imaginava aquele universo, vinda de uma família de mulheres fortes. Quando soube que era menino, precisou desconstruir tudo. O marido comemorou o sonho de jogar futebol; outras pessoas, ao redor, deixaram escapar frustração, porque "todo mundo tem menina". Júlio nasceu, cresceu, e se tornou, nas palavras da mãe, um menino doce, educado, seu grande parceiro, mas ela nunca deixou de observar com atenção o que ele absorvia do pai e dos avós.
Um dos primeiros sinais veio antes mesmo de o filho falar direito. Com pouco mais de um ano, Júlio tirou o controle remoto da mão da mãe, entregou ao pai, e passou a vassoura para ela, porque era isso que via em casa todos os dias. Maviane inverteu as funções ali mesmo, para mostrar que limpar não era natural apenas para mulher. Hoje educa o filho para ser provedor, mas também responsável pela louça, pela casa e pelo quintal. Ele é, nas palavras dela, muito mais parceiro nisso do que o próprio marido.
A cena mais reveladora, porém, aconteceu de novo no trânsito. Maviane tinha medo de dirigir, mas precisava enfrentar o medo para levar o filho à escola. Na primeira vez em que conseguiu estacionar sozinha, Júlio, com três anos, comemorou: "Parabéns, mamãe, agora você é um homenzinho." A frase a fez perceber que o filho repetia o que ouvia em casa: a ideia de que competência é, antes de tudo, coisa de homem. Ela mudou o próprio vocabulário depois disso, trocando "homenzinho" por "maduro" ou "independente". Ainda hoje, quando vê alguém dirigindo devagar no trânsito, o filho pergunta se é homem ou mulher; ela responde, sempre, que é apenas alguém aprendendo, e que aprender exige paciência.
Pesquisas acadêmicas sobre educação infantil confirmam que esse tipo de aprendizado começa cedo e quase sempre sem intenção. Um estudo publicado em 2009 na revista Cadernos Pagu, da Unicamp, que observou práticas de professoras em creches e pré-escolas, mostrou que características tidas como "naturais" da masculinidade e da feminilidade são, na prática, produzidas por pequenos gestos de socialização repetidos todos os dias, no corpo, no comportamento, nas habilidades que se estimula ou se reprime em cada criança. A cena do "homenzinho" de Maviane não é, portanto, um episódio isolado: é uma versão doméstica de um processo que pesquisadoras já documentaram dentro da sala de aula.
Na escola onde trabalha, que atende famílias de baixa renda em Niterói, muitas chefiadas por mães solo ou avós, Maviane diz nunca ter sentido tanto machismo quanto em outros ambientes, mas ainda questiona, na prática, por que meninas ganham fogão de brinquedo e meninos ganham carro e avião. Certa vez, elogiou as colegas de turma do filho por fazerem balé, xadrez e música, enquanto os meninos só jogavam futebol. Júlio respondeu: "Mãe, os meninos são limitados ao futebol e as mulheres conseguem fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo." Ela devolveu a pergunta: ele estava apenas aceitando essa limitação, ou também podia se interessar por xadrez, por coral? A resposta do filho, aos oito anos, talvez seja a fala mais precisa de toda a conversa: Meninos aprendem cedo que existe um território definido para eles, e que sair dele exige explicação.
Se parte da masculinidade se aprende em gestos, outra parte se aprende, ou deixa de se aprender, na relação com os próprios sentimentos. É aqui que entra a psicóloga Erika Pellegrino, especializada em infância e adolescência desde os tempos de faculdade, quando estagiou em escolas, hospitais e serviços de neuropsicologia, e depois estudou déficit de atenção na França com bolsa de estudos. Sua leitura sobre o comportamento masculino tem um argumento central: quem não aprende a expressar sentimento também não aprende a controlar comportamento. "Controlar o comportamento significa dar um destino para as emoções, para que elas não explodam", explica. Reprimir sentimentos, na visão dela, não forma meninos fortes: forma meninos que, mais cedo ou mais tarde, têm surtos.
Maviane chega a uma conclusão parecida por outro caminho, o da prática escolar. Ela descreve a criança como uma "esponjinha", que absorve tudo, inclusive traumas, desde o ventre. O papel de quem educa, diz, é ensiná-la a virar "filtro", e não esponja: desconstruir frases como "menino não chora" e ajudar a colocar em palavras o que se sente, em vez de descontar em mordida ou grito. A raiva na infância, segundo ela, quase nunca é pura agressividade: é falta de ferramenta para dizer o que se sente, às vezes até excesso de afeto mal direcionado.
Nem todos os pais chegam à mesma conclusão pelo mesmo caminho, porém. Francisco Vaz, pai do Théo, também de 8 anos, resume o desafio numa frase curta: educar um menino, hoje em dia, é difícil. Credita a dificuldade à televisão e à internet, que, na visão dele, mostram muita coisa errada e embaralham papéis que ele acha que deveriam ser mais claros. A preocupação mais concreta, porém, é outra: o tempo que a tela tira da rua, da bicicleta, da pipa, coisas que marcaram a própria infância dele.
É nessa comparação com a própria infância que Francisco também se revê. Apanhava quando chorava; hoje, com Théo, diz que quer bater menos do que apanhou. Não é ainda o modelo de educação afetiva que Maviane e Pellegrino descrevem, mas é um passo na mesma direção: o reconhecimento, mesmo que incompleto, de que algo daquela criação poderia ter sido diferente. A fala de Francisco mostra a distância entre o discurso e a prática dentro de muitas casas brasileiras, mesmo quando a intenção já começou a mudar de geração para geração.
Organismos internacionais chegam a resultados parecidos, com mais cautela sobre generalizações. A Organização Pan-Americana da Saúde, braço regional da OMS, aponta que normas de gênero e a influência da mídia podem aumentar a distância entre a vida real de um adolescente e suas expectativas para o futuro, afetando a saúde mental do grupo. Pesquisas sobre saúde mental masculina mostram, na mesma linha, que o estoicismo emocional, a ideia de que chorar reduz e conter a raiva reforça a posição de um homem, funciona como barreira real para buscar ajuda profissional. Não é que todo menino seja educado para não chorar. É que, em determinados contextos, essa é a norma que reforça o silêncio.
Esse silêncio, hoje, encontra um ambiente onde ecoa mais rápido do que nunca: a internet. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, do Cetic.br, 93% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos usaram a internet nos três meses anteriores ao levantamento, e 83% já tinham perfil próprio em alguma plataforma digital. Entre os usuários dessa faixa etária, 70% usam o WhatsApp diariamente; 66%, o YouTube; 60%, o Instagram; 50%, o TikTok. Antes de qualquer discussão sobre conteúdo, esse é o dado que precisa ficar claro: para a geração de Júlio e Théo, a internet não é um ambiente à parte, é onde a vida social também acontece.

É dentro desse ambiente que cresce a preocupação com espaços que, segundo Pellegrino, oferecem a meninos algo que não encontram mais em casa: uma "régua moral" e uma sensação de pertencimento. Na leitura da psicóloga, jovens de famílias desestruturadas e com carência afetiva são mais suscetíveis a movimentos como o Red Pill, que reúne ressentimento contra mulheres e uma visão pessimista sobre relações e sobre o futuro. Vale marcar que essa relação entre carência afetiva e a busca por esses espaços é a interpretação clínica de Pellegrino a partir da própria prática, e não um dado estabelecido por pesquisa com esse recorte causal específico.
O que existe, apurado de forma independente, é uma descrição melhor de como esses discursos chegam até os meninos. Em julho deste ano, a ONU Mulheres e o Unicef lançaram no Brasil um guia voltado a famílias, batizado "No Mesmo Time", para ajudar pais a reconhecer sinais de que um filho está sendo exposto ao que os dois organismos chamam de "machosfera", comunidades on-line que promovem misoginia sob a bandeira da masculinidade. O material explica como os algoritmos levam esse conteúdo até adolescentes e lista sinais de mudança de comportamento e linguagem que podem alertar a família. Um levantamento da revista AzMina com o Núcleo Jornalismo, citado pela ONU no lançamento do guia, mostra que a misoginia costuma chegar às redes sociais de forma gradual e disfarçada, embutida em conteúdo de motivação pessoal e autoajuda, não em discurso abertamente violento. O caminho até esses espaços raramente começa com ódio explícito. Começa com promessas de força, disciplina e pertencimento: as mesmas coisas que, segundo Pellegrino e Maviane, deveriam vir de casa.
É por isso que a pergunta sobre quem ensina um menino a ser homem não tem resposta única, e talvez seja esse o ponto. Família, escola, trânsito, internet: cada um desses lugares ensina alguma coisa, quase sempre sem avisar que está ensinando, e nem sempre a mesma coisa. Maviane sabe disso melhor do que a maioria, porque vive corrigindo o próprio rumo diante do filho, em tempo real. Um dos exemplos mais bonitos dessa correção não tem relação nenhuma com trânsito ou tela: aos três anos, Júlio quis comprar um bicho de pelúcia, batizado "Pedro Pudim". Preencheu, com ajuda da mãe, uma certidão de nascimento de brincadeira em que se declarava "pai solo". Aos nove anos, ainda troca a roupinha do urso e o cobre à noite antes de dormir. Maviane chama isso de ensaio para a vida adulta.
Não existe manual para criar um filho, ela repete, quase como um lembrete para si mesma. A mensagem que deixa para quem está educando um menino hoje é direta: formar alguém que a própria pessoa gostaria de ter por perto, como parceiro, como colega de trabalho, como amigo. Empático, solidário, capaz de cuidar tanto quanto de prover. O resto, ela sabe, meninos como Júlio e Théo vão aprender sozinhos, com ou sem permissão de quem educa, em casa, na escola, no trânsito, na tela. A pergunta que resta não é se vão aprender. É com quem.
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