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  • Foto do escritorHugo Lage

Serrano, clube por onde passou Garrincha, mira no modelo empresa para sobreviver

Atualizado: 24 de jun.

Com 108 anos de história, time petropolitano investe em novo CT e em contratações para se destacar na segunda divisão de clubes do Rio


Torcida serranista antes do jogo contra o América, válido pela quarta rodada da Série A2 do Carioca - Foto: Arquivo pessoal

Em uma tarde ensolarada de sábado, no dia 8 de junho de 2024, o clima era de muito otimismo no Estádio Atílio Marotti, casa do Serrano Football Club. A equipe azul e branca realiza seus jogos como mandante no bairro da Mosela, em Petrópolis, a mais de 65 quilômetros de distância da capital fluminense. Para o duelo contra o America, clube dirigido por Romário, ex-jogador e senador da República, foram vendidos mais de 900 ingressos. 


A capacidade máxima do estádio é de mil lugares, somando a geral e a arquibancada social. Ao final do jogo, o empate em 2 a 2 manteve o Serrano sem vitórias na atual edição da Série A2 do Campeonato Carioca. Entretanto, a partida mostrou que o time petropolitano tem potencial para o futuro.


Fundado em 29 de junho de 1915, o Serrano FC, conhecido também como “o clube mais querido de Petrópolis”, tem muita história para contar. Segundo Gladstone Lucas, antigo funcionário do setor de Comunicação, a alcunha surgiu na década de 40, quando o jornal Tribuna de Petrópolis promoveu uma votação para o apelido. Apesar de não apresentar tantos títulos - apenas uma edição da terceira divisão estadual (1992) e uma da segunda (1999) - o grande marco da sua existência é ter sido a primeira equipe pelo qual Garrincha, ídolo do Botafogo e da seleção brasileira, jogou. 


Ainda que não tenha atuado em jogos pelo profissional do clube, que só tinha futebol amador até 1970, o “Anjo das Pernas Tortas” é lembrado com carinho pelos torcedores. Para Gladstone, Garrincha foi o maior jogador do Serrano. A passagem do ex-atleta no time ocorreu durante o início dos anos 1950, e, em 1953, seguiu sua carreira no Botafogo, após chamar a atenção de olheiros do alvinegro.


Homenagem para Mané Garrincha no Estádio Atílio Marotti - Foto: Gladstone Lucas/Serrano FC

O Serrano também contou com outros bons momentos no passado. Nos anos 1980, marcava presença constante na primeira divisão do Campeonato Carioca. Além disso, chegou a disputar a edição do Campeonato Brasileiro de 1980, sua única participação em um torneio nacional. Neste mesmo ano, venceu o Flamengo de Zico por 1 a 0, com gol de Anapolina.


Reestruturação e projetos de base


Entre 1990 e 2020, o Serrano sofreu com problemas financeiros e oscilou entre a segunda e a terceira divisão estadual. A partir de 2020, a empresa Interfut assumiu o comando de futebol da equipe e a situação mudou de figura. As atividades sociais seguem sendo lideradas pela presidência, que tem sede ao lado do Atílio Marotti. A nova gestora assumiu, além do profissional, as divisões de base, o estádio, o CT e o gerenciamento de comunicação. 


Em entrevista ao Rampas, o diretor executivo de futebol do clube, Kleber de Souza Leite Filho, diz que houve investimento na Arena Interfut, localizada na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, para captar mais atletas. “Além da ausência de um CT para a base em Petrópolis, aqui nós estamos em uma área acessível e populosa. É essencial para ter visibilidade, porque facilita a logística nas competições”.


Octavio Vasconcellos, diretor de futebol, entende que essa estrutura na capital fluminense, ainda que distante da sede social do time, ajuda na busca por novos jogadores jovens. 


O Serrano também utiliza o centro de treinamentos do Tigres, equipe com sede em Xerém, no interior de Duque de Caxias. Kleber diz que essa opção se deu pela questão administrativa: “É perto de Petrópolis e fica acessível para os atletas que moram, em sua maioria, na Baixada Fluminense. Além disso, tem a boa estrutura do Tigres. A ideia é que, no médio prazo, seja desenvolvido um CT na cidade”.


A Arena Interfut abriga os treinamentos de todas as equipes da base serranista - Foto: Alexandre Corrêa/Serrano FC

A realidade de um clube de menor orçamento


No ano passado, o Serrano conseguiu o acesso para a segunda divisão do Campeonato Carioca de 2024. Kleber e Octavio destacam que o orçamento do clube está dentro dos padrões praticados na divisão, e que os jogadores recebem, em média, entre R$ 3.500 e R$ 4.000.


O lateral Elivelton, aos 28 anos, vai para a sua quarta temporada no clube de Petrópolis. Nascido em Guarulhos (SP), começou a carreira no Ipatinga, em 2015. De acordo com o jogador, foi o período mais difícil de sua trajetória. O pai faleceu um mês antes e a mãe sofreu um acidente de carro, no qual saiu gravemente ferida e precisou andar de cadeira de rodas por seis meses. Além disso, Elivelton rompeu os ligamentos do joelho, o que fez com que ele ficasse um ano e quatro meses sem jogar. 


Há quase uma década como profissional, o lateral direito afirma que a carreira no futebol não é tão simples. Para ele, é preciso amar o que faz: “São muitos sacrifícios, distância da família, dos amigos, lesões. Nós vivemos na incerteza, é um pouco complicado. Não são só as cobranças e derrotas, é preciso lidar também com os clubes que não oferecem condições mínimas e cobram como se estivessem oferecendo estruturas absurdas. Têm times que não pagam e nem cuidam da integridade física dos atletas”. 


Ele ainda complementa que a situação das equipes da Série A do Campeonato Brasileiro é um “outro mundo”. Além de jogador, Elivelton faz faculdade de Educação Física. 


Elivelton em partida válida pela Série B1 do Campeonato Carioca de 2022 - Foto: Henrique Lima/ Serrano FC

O atleta destaca que já ficou quatro meses sem receber salários. Além disso, comenta que um clube encerrou as atividades e o enviaram machucado para casa. Ao responder como conseguiu superar isso, compartilha que contou com a ajuda de Deus, de sua esposa e de seus familiares. 


Sobre o Serrano, Elivelton tem um relato bem diferente do que passou em outros lugares: “Foi a única equipe em que me senti um jogador de verdade, porque o básico e o mínimo nunca faltaram. Aqui temos direitos, profissionais preparados e salários. Minha única preocupação é dentro de campo mesmo, procuro me dedicar e dar o meu melhor para alcançar os objetivos do time. É o melhor que já joguei até então. Tem uma estrutura muito boa”.


Outros profissionais também fazem parte de um clube de orçamento menor. Gladstone Lucas conta que ele exercia as mais diversas funções de Comunicação. Já trabalhou como fotógrafo, assessor de imprensa e social media


Thaís Torres também detalha um pouco sobre sua trajetória no Serrano. Fisioterapeuta, está na equipe desde 2020, quando a parceria com a Interfut começou. Atuando na base, diz ter ótima relação com os jogadores mais jovens. Além disso, atende em uma clínica particular.


Rafael Aparecido da Silva Cassiano, auxiliar de conservação do estádio, trabalha há três anos no time e explica a rotina de trabalho: “No dia a dia, mantenho o Atílio Marotti limpo e organizado. Sou responsável pela compra de tintas e pela pintura das linhas do campo. Antes dos jogos, cuido do gramado e, às vezes, mexo com eletricidade. Também acompanho serviços de empresa terceirizada e faço o monitoramento das câmeras”.


Torcida do Serrano presente no jogo contra o America, no dia 8 de junho - Foto: Arquivo pessoal

Mesmo com algumas dificuldades naturais para um clube de menor investimento, o Serrano conta com o carinho da torcida e dos funcionários. Torcedor fanático desde 1989, Rafael de Carvalho Kappler afirma que tem muito apreço pelo time, já que “o  clube mais querido de Petrópolis” representa a cidade e oferece oportunidades de trabalho e entretenimento. 


Sobre o projeto da Interfut e o futuro da equipe, Rafael relata que o trabalho está sendo bem feito. Sua maior crítica é em relação ao clube social, mas ele acredita que o futebol pode voltar a ter maior projeção. “O Serrano não está na elite estadual e nacional por causa de más administrações do passado, mas confio em um futuro positivo”.



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