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  • Foto do escritorJônatas Levi

Tecnologia nas escolas: inclusão e dificuldades

No Rio de Janeiro, programas municipais promovem a inclusão digital em áreas periféricas, mas desigualdade entre ensino público e privado persiste 


Prefeitura do Rio investe em educação inovadora com novo Ginásio Experimental Tecnológico (GET). Foto: Marcos de Paula/Prefeitura do Rio

O Censo Escolar de 2020 aponta que 85% das escolas particulares da rede infantil no Brasil contam com internet banda larga. Esse dado evidencia uma realidade que bate à porta dos brasileiros: o acesso à rede por pessoas de todas as idades. Mas já parou para pensar como uma criança ou adolescente precisa ser instruído sobre o uso adequado de aparelhos tecnológicos? 


Segundo especialistas, para integrar ferramentas digitais ao currículo dos alunos, é necessário pensar primeiro em disciplinas que levem aos alunos lições sobre cidadania digital. Para o professor de História e especialista em educação infantil Mateus Gusmão, essa medida antecipa possíveis usos e atributos de determinadas ferramentas. 


Gusmão entende que é preciso de um plano alinhado com as expectativas educacionais que se têm para “driblar” a falta de estrutura e recursos. Ele acredita que poucas cidades do Rio de Janeiro têm estrutura para inserir totalmente a tecnologia no currículo: “Infelizmente existe uma defasagem muito grande entre público e privado, e isso é muito difícil de ser resolvido a médio prazo”.


Em 2022, foram inaugurados na cidade do Rio de Janeiro os Ginásios Experimentais Tecnológicos, os GETs, um modelo de escola inovador que integra diferentes tipos de conhecimento, inclusive o ensino de educação digital. Com isso, a prefeitura acredita que haverá um “impacto significativo” na promoção de conhecimento de novas tecnologias.


Rio de Janeiro conta com dez Naves do Conhecimento. Foto: Divulgação/Prefeitura do Rio

As Naves do Conhecimento, que são espaços voltados para a educação digital para pessoas de todas as idades, são outro projeto da Prefeitura do Rio, implementado em 2012. Segundo a secretária municipal de Ciência e Tecnologia do Rio, Thereza Paiva, a proposta atual do programa é oferecer, inicialmente, cursos mais básicos que atendam a demanda de orientar a comunidade para depois “passar a oferecer um conteúdo mais avançado". Ao todo, são 18 naves, todas em regiões periféricas da cidade, com cursos que “preparam crianças, jovens e adultos” para lidar com a tecnologia. 


Lucas Gomes, de 15 anos, está no primeiro ano do ensino médio, e acredita que a tecnologia tem sido uma grande aliada para seu desenvolvimento enquanto estudante. “O YouTube tem sido muito importante para mim. Quando não consigo compreender o conteúdo, sempre procuro vídeo aula para tirar as dúvidas. Isso facilita e me faz não ficar tão preso à sala de aula”, diz. A possibilidade do contato com os professores ser mais direto por meio de plataformas disponibilizadas pela instituição de ensino em que ele está matriculado é mais um ponto levantado por Lucas: “Eu consigo enviar mensagens pelo Discord, e meus professores me respondem muito rápido, o que tem facilitado muito o aprendizado”. 


Outro estudante impactado diretamente pela tecnologia é Mateus Carvalho, de 14 anos. O jovem reside em Osasco, cidade da Região Metropolitana de São Paulo, e diz que em sua escola a tecnologia faz parte do dia a dia. Ele conta que além do uso, recebe instruções detalhadas sobre o comportamento adequado da tecnologia. “Aprendi que não posso passar mais de 6 horas do meu dia em frente às telas. Tenho me policiado muito, porque o TikTok acaba consumindo boa parte do meu tempo quando uso celular. Tenho aprendido a usar a tecnologia de maneira balanceada graças aos meus professores”, diz. 


Apesar dos inúmeros benefícios e facilidades que a tecnologia oferece, também existem muitas dificuldades. Muitos professores, especialmente devido à falta de familiaridade com as novas ferramentas, não conseguem ter um domínio adequado dos meios de tecnologia. Isso pode causar uma dificuldade, em especial nas instituições públicas, para modernização.


Desafios na educação tecnológica


Flávia Lima, diretora de uma escola municipal do Rio de Janeiro, explicou que “a maior dificuldade são os professores, não os alunos. Os alunos já vem sabendo usar celular, tablet e todas as plataformas digitais”. Ela acredita que, a médio prazo, não será possível mudar a realidade atual. “Por mais que existam programas da prefeitura para inserir isso no currículo, a dificuldade é muito grande”, concluiu.


Camila Amorim, de 15 anos, é aluna da rede pública de ensino do Rio de Janeiro e recentemente passou por uma situação em que enfrentou dificuldades com o uso da tecnologia por parte dos professores. Ela relatou que enviou um trabalho por email para um professor que alegou não ter recebido. “Eu enviei, eu podia provar que enviei, mas ele não deu ouvidos. Tive que procurar a direção da escola para mostrar o email enviado e aí conseguir uma nota”, disse. 


Depois do fato, diversos outros alunos teriam relatado o mesmo problema com o mesmo docente. “Ele apagava os email sem ver. Diversas pessoas reclamam do mesmo problema, não foi só eu”, contou a estudante. 


Projetos inovadores no Rio de Janeiro 


Atualmente, Mateus Gusmão atua como professor no Colégio e Curso Fator, uma das instituições que são referência no uso de tecnologia no Rio de Janeiro. Todo material didático é disponibilizado por uma plataforma chamada “Geek One”. Além da utilização de plataformas, a escola conta com aulas online e mentoria online personalizada para os alunos. “Nós temos uma equipe que fica pelo menos 16 horas por dia disponível no Geek para tirar dúvidas e interagir com os alunos. Acreditamos que precisamos estar em contato constante através da internet. Acho que é uma necessidade do mundo atual”, diz Rafael Lima, diretor geral e sócio-proprietário da escola. 


Ele argumenta que a tecnologia permite com que se saiba, por exemplo, os dados de alunos que acertaram ou não uma determinada questão. “Se eu passei uma prova de dez questões, eu tenho três questões difíceis, três questões fáceis e quatro questões médias. Eu consigo separar rapidamente, com os dados compilados ali, na própria plataforma, quais alunos estão em cada faixa”, conclui. 


Uma das pessoas que teve sua vida influenciada diretamente pelo método de ensino do Fator é Eduarda Febrone. Atualmente, a jovem de 22 anos é estudante de direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), e conta que só conseguiu a bolsa de 100% que possui na universidade graças aos métodos de ensino aos quais foi exposta: “Estudar se tornou algo bem menos complicado. Eu não perdia tempo, era acompanhada de perto. A sensação era que tudo que eu precisava, eu teria uma rápida resposta”.


“Quando comecei a estudar para o vestibular, eu tinha um índice de acerto de pouco menos de 40% das questões. No final, eu acertava entre 80% e 85%. Toda essa evolução eu acompanhei e tenho registrada nos aplicativos", diz. Para Febrone, a tecnologia é fundamental para a educação. “Por ter sido exposta tão cedo a esse universo, eu vejo que meu desempenho na vida acadêmica é muito mais proveitoso do que de outras pessoas que não tiveram acesso ao que eu tive”, conta. Ela completa dizendo que, infelizmente, essa não é uma realidade possível para todas as pessoas. 


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