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‘Todo Mundo no Rio?’ - O problema é voltar pra casa

há 3 minutos
5 min de leitura

População da Baixada Fluminense sofre com as deficiências e o alto custo do transporte público no deslocamento para grandes eventos na capital


Por Emillyn Silveira


Moradoras da Baixada Fluminense, Joyce Cunha, estudante de Relações Públicas, 23 anos; Ana Carolina Novaes, jovem aprendiz, 21; e Eduarda Marinho, estudante de Psicologia, 23, têm uma paixão em comum: os eventos culturais. Após o anúncio das datas dos shows do Rock in Rio, elas garantiram os ingressos, arrumaram as bolsas e colocaram as botas, mas se depararam com uma das principais dificuldades para frequentar grandes eventos - o deslocamento. A Bienal do Livro, o Todo Mundo no Rio, com os megashows em Copacabana, e outros festivais apresentam o mesmo obstáculo para quem mora na Baixada Fluminense. Em geral, os shows terminam de madrugada, quando há pouco movimento nas ruas, e a circulação do transporte público é reduzida ou encerrada. Além disso, motoristas de aplicativos costumam recusar as corridas, o que aumenta a insegurança no retorno para casa. “Já me ocorreu de ficar horas na rua esperando Uber, mas eles nem aceitam”, conta Ana Carolina.


O horário de encerramento também influencia a possibilidade de retorno para casa e limita a permanência do público nos eventos. Eduarda considera que uma alternativa seria antecipar o fim das apresentações. “Os shows acabam muito tarde. Eu acho que eles poderiam acabar um pouco mais cedo, pensando até nas pessoas que moram longe”, comenta. Para conseguir voltar para casa, algumas pessoas alugam quartos de hotel, dormem na casa de amigos e parentes ou procuram caronas. Essas alternativas, porém, não estão disponíveis para todos que desejam participar dos eventos e usufruir do direito à cidade e à cultura.


Pessoas na luta ao voltar para casa após um dia de trabalho. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Pessoas na luta ao voltar para casa após um dia de trabalho. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

O acesso à cultura está previsto na Constituição Federal de 1988 e é considerado um dever do Estado. O artigo 215 determina que o Estado deve garantir a todos o pleno exercício dos direitos culturais e o acesso às fontes da cultura nacional. O direito à cidade inclui reconhecer a necessidade de planejamento e a gestão do espaço urbano para garantir o bem-estar coletivo e a equidade social. Na prática, porém, o acesso a esses direitos é limitado pela estrutura de mobilidade. 


São poucas as linhas de ônibus intermunicipais conectando os diversos municípios da região metropolitana aos locais de eventos, fora que as estações de metrô estão localizadas apenas na capital, e apenas raramente com o horário de funcionamento avançando para a madrugada, como no réveillon, carnaval e nos  mega shows em Copacabana. Para Eduarda, o fato de ser mulher aumenta ainda mais a preocupação com o retorno para casa. “A mulher corre mais risco de ser assediada, a mulher é um alvo mais fácil para a violência. A maior dificuldade sendo mulher é essa questão do perigo que a gente corre, tanto no transporte quanto no evento em si”, afirma.


Entrada da Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, durante a edição de 2025. Foto: Esthefane Silveira.
Entrada da Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, durante a edição de 2025. Foto: Esthefane Silveira.

A Baixada Fluminense está localizada na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, distante dos principais pontos de concentração de grandes festivais. Os eventos citados pelas entrevistadas ocorrem, em sua maioria, na Barra da Tijuca ou na Zona Sul do Rio. O sociólogo Vinícius Fernandes, professor do Colégio Pedro II, explica que o transporte público destinado às regiões periféricas, principalmente na Baixada, é estruturado sobretudo para atender ao deslocamento relacionado ao trabalho. “O transporte público não é uma política pública de circulação da população dessas regiões periféricas num fluxo constante que leve em consideração, também, que as pessoas saem à noite, que, às vezes, você tem eventos no fim de semana, grandes eventos”, explica.


Ex-morador da Baixada Fluminense, Fernandes conhece as dificuldades enfrentadas pelos moradores durante os deslocamentos. Segundo ele, a falta de opções diretas aumenta o tempo e o custo das viagens. “Você não tem trem, você não tem metrô e os ônibus são muito caros. Você tem que fazer no mínimo duas baldeações, às vezes três baldeações. Dependendo do dia e do horário, o cartão intermunicipal não vai funcionar, porque ele é pensado somente na faixa do mundo do trabalho”, afirma. O Bilhete Único Intermunicipal (BUI), sob gestão do governo do estado, é um benefício que pode ser usufruído por pessoas com idade entre 6 e 64 anos, e com renda mensal igual ou inferior a R$3.205,20. O passageiro cadastrado no BUI pode utilizar até 2 meios de transporte, um deles obrigatoriamente intermunicipal, no limite de um período de 3 horas entre eles, pagando o valor máximo de R$ 9,40. 


O benefício abrange barcas, metrô, trem, ônibus municipais e intermunicipais, vans intermunicipais legalizadas, BRT e VLT, podendo ser utilizado 2 vezes ao dia, na lógica de ida e volta do trabalho, com intervalo mínimo de 1 hora entre elas, o que reforça argumento de Fernandes. O sociólogo também aponta como agravante o fato de o metrô do Rio de Janeiro ser uma concessão estadual, mas atender apenas o território da capital, dificultando a mobilidade de uma população, só na Baixada Fluminense, estimada em cerca de 3,5 milhões de moradores, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


Para Ana Carolina, que mora em São João de Meriti, a locomoção é a principal barreira para participar dos eventos. “Normalmente, os eventos são na Barra da Tijuca e eu prefiro pegar o transporte público. Nesse caso, fica quase impossível”, relata. O professor Fernandes afirma que a ausência de transporte público adequado não representa apenas um impedimento à circulação, mas também uma barreira econômica. Para reduzir os riscos durante o retorno, Eduarda costuma pedir ajuda aos pais. “Pedi para meus pais me buscarem no meio do caminho porque eu não me sinto segura voltando de noite para casa desses eventos”, conta.


Roda-gigante e palco durante o Rock in Rio, na edição de 2026. Foto: Joyce Cunha.
Roda-gigante e palco durante o Rock in Rio, na edição de 2026. Foto: Joyce Cunha.

As entrevistadas desenvolveram estratégias  para aumentar a segurança durante o retorno dos eventos. Dependendo do horário de encerramento, Eduarda permanece no local até o amanhecer. “Se for um evento, por exemplo, que vai acabar às 4 da manhã, eu fico lá até o evento acabar. Eu fico até clarear para poder voltar quando já está começando a ter um movimento na rua, de pessoas indo para o trabalho, no horário em que já começam a rodar os ônibus na rua”, relata.


Joyce procura estar sempre acompanhada. Antes de sair de casa, verifica as opções de transporte e escolhe o trajeto que considera mais simples. Ana Carolina, por sua vez, combina previamente com alguém para levá-la e buscá-la.


Para Fernandes, as dificuldades estão relacionadas ao avanço limitado das políticas públicas de mobilidade urbana. Segundo o sociólogo, a concentração de grandes eventos na Barra da Tijuca é um dos fatores que dificulta o acesso dos moradores de regiões mais distantes. “Tem muitos eventos concentrados na Barra da Tijuca, e é mais difícil chegar”, explica. O professor também relaciona a localização dos eventos à segregação socioespacial. Para ele, a própria Barra da Tijuca apresenta características de segregação relacionadas à distribuição territorial e ao poder aquisitivo da população. “A Barra já é um fenômeno que já contém nela própria, em um determinado perímetro, uma segregação socioespacial. E por que esses eventos vão preferencialmente para a Barra da Tijuca? Pelo poder aquisitivo daquela população ali. Além da própria Barra da Tijuca, que você vai ter um poder aquisitivo mais elevado, você está muito próximo da Zona Sul do Rio de Janeiro”, afirma. Segundo Fernandes, o público-alvo dos grandes eventos é formado, em parte, por pessoas com maior poder aquisitivo. Para ele, essa característica ajuda a explicar por que a estrutura de transporte não atende de forma adequada moradores de regiões mais distantes da Zona Sul.

 

O Rampas Uerj entrou em contato com a assessoria de imprensa do MetrôRio a respeito de possíveis projetos de extensão dos horários de funcionamento do metrô, mas não houve resposta.




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