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Torcendo em ritmo argentino: a ascensão das torcidas barras bravas no Rio

há 19 horas
5 min de leitura

Inspiradas no estilo dos  hermanos, as barras dos clubes cariocas ganham espaço nas arquibancadas; em 2026, a vascaína Guerreiros do Almirante chega aos 20 anos


Por: Júlio César


Faixa exibida pela Guerreiros do Almirante - Foto: Perfil do Facebook da GDA
Faixa exibida pela Guerreiros do Almirante - Foto: Perfil do Facebook da GDA

Em 2026, o futebol argentino acompanhou os últimos capítulos de Lionel Messi com a camisa da seleção, uma história que começou há duas décadas e trouxe a conquista do tricampeonato da Copa do Mundo para a Argentina. Também há 20 anos, uma herança dos “hermanos” surgida nas arquibancadas atravessou a fronteira: as barras bravas, torcidas típicas daquele país que passaram a fazer parte do cenário das torcidas de futebol da cidade.


As barras surgiram na década de 1950, na Argentina, e ganharam a alcunha após um torcedor morrer em uma partida entre Vélez Sarsfield e River Plate, segundo o GE Globo. Em mais de 70 anos, as barras bravas argentinas carregam o peso de muitos casos de violência. Apesar disso, também têm visibilidade pelas festas nas arquibancadas. O grande exemplo é La 12, do Boca Juniors, que dominou os anos 2000 com competições internacionais com o apoio do seu “12º jogador”. 


As barras bravas também apostam numa estética diferente, com muitas bandeiras, fumaças coloridas, tirantes (faixas verticais) e papel picado. Também se diferenciam das torcidas organizadas tradicionais por sua filosofia de apoio durante os 90 minutos, independentemente do resultado. Os torcedores das barras evitam usar abadás, utilizando apenas uniformes do time, para expressar esse amor ao clube. Diferente das torcidas organizadas que possuem estrutura administrativa, as barras funcionam de maneira descentralizada, com lideranças orgânicas.  Além disso, seus instrumentos, como bumbos, trompetes, murgas e pratos trazem à arquibancada um ritmo cadenciado e pulsante, se diferenciando do ritmo de outras torcidas brasileiras, que usam variações e gingados inspirados no samba e no funk. As barras também se afastam das torcidas organizadas na questão territorial, pois as tradicionais mantêm ramificações em bairros e regiões do Rio de Janeiro e do Brasil. Por fim, uma  barra brava defende o clube acima de qualquer bandeira; já uma organizada concentra esforços na defesa da torcida - e esse é um dos motivos que acabam acarretando em confrontos entre grupos rivais. 


A primeira barra brava carioca foi a Loucos pelo Botafogo, fundada em 2006 por dissidentes de uma das organizadas do clube, a Torcida Jovem Botafogo. No mesmo ano, a Guerreiros do Almirante surgiu em agosto, com vascaínos incomodados com o comportamento da torcida vascaína na final da Copa do Brasil de 2006, perdida contra o maior rival, Flamengo.

 

Já em 2009, surge a barra brava do Fluminense, Bravo 52, para apoiar o clube em um momento crítico do Campeonato Brasileiro, em que a probabilidade de rebaixamento do tricolor era praticamente certa.. No mesmo ano, aparece  a Nação 12, organizada por flamenguistas, quando o Flamengo iniciou uma arrancada para se consagrar campeão brasileiro. Assim, estava completa a lista de barras dos quatro grandes clubes cariocas.


Após sucessivas punições a torcidas organizadas clássicas, impedidas de frequentarem os estádios com seus artigos e vestes que as caracterizam, as barras bravas ganharam destaque pela sua forma de fazer a festa em volta do campo. “Preparamos todos os materiais um dia antes. Separamos tirantes, bandeiras e instrumentos na véspera para nos organizarmos da melhor maneira para a festa no estádio”, conta Julia Candido, de 18 anos. Estudante de Geografia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), ela atua como liderança de marketing da Guerreiros do Almirante, além de fotógrafa e videomaker. “Queremos passar uma imagem de amor ao clube acima de tudo. Durante os 90 minutos, a nossa vida pertence completamente ao Vasco.”



No mês de agosto de 2026, a Guerreiros do Almirante completou 20 anos. Foi criada por dissidentes da Força Jovem Vasco, outra organizada do clube, que queriam concentrar os esforços na cantoria e no apoio ao cruzmaltino. É o que conta Vinicius ‘Foca’, presidente da GDA. Ele destaca as principais mudanças que a torcida sofreu ao longo da história: “No início, tínhamos uma política rigorosa: sem camisas e bonés personalizados, nem materiais iguais às torcidas clássicas; apenas itens que remetessem somente ao Vasco. Hoje, temos mais liberdade para criarmos materiais, temos programa de sócio, entre outras coisas”. 


Foca também destacou a influência das barras bravas sul-americanas e dos ultras europeus na forma de torcer da GDA. “Buscamos sempre a melhor forma de torcer e nos adaptamos a todas as dinâmicas que enxergamos como favoráveis para apoiar o nosso time”, explica.


A Guerreiros do Almirante preparou diversas ações para comemorar os 20 anos. Foi organizada uma festa na sede, na Rua Ferreira de Araújo, 31, no bairro Vasco da Gama, com mosaicos, chuva de papel picado, homenagens, além de um documentário especial. “Nos dedicamos muito para comemorar os 20 anos, estávamos dormindo na sede”, comenta Julia. “O que faz a GDA permanecer por todo esse tempo é que ninguém desistiu. Desde os fundadores até aqui, conquistamos a admiração e o respeito sem desistir”, completa. 


“Já deixamos vários legados na arquibancada. Não precisamos ser fechados com a mistura, podemos adaptar tudo. O samba, o funk, o frevo, o baião, o MPB, o xaxado, qualquer coisa pode ser uma barra brava”, conclui Vinicius. 


Apesar das alegrias, a realidade de violência carrega a história das organizadas no Rio, e com as barras bravas não tem sido diferente. Em maio de 2026, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) pediu o afastamento das torcidas organizadas Jovem Fla e Força Jovem do Vasco por 10 partidas de suspensão. A punição veio após um jovem perder a visão ao ser atingido por uma bala de borracha nos arredores do Maracanã, durante um jogo entre  Flamengo e Vasco. 


Em 2017, Pedro Lucas Scudieri, integrante da barra Bravo 52, do Fluminense, foi brutalmente agredido em emboscada por integrantes da Força Jovem Vasco. O rapaz teve sequelas permanentes. Em 2023, a Justiça anulou a sentença que absolvia os acusados, e o julgamento foi adiado para novembro de 2026.


Vinicius comentou sobre a percepção que atrela as torcidas organizadas à violência: “Estamos em uma sociedade violenta, então isso se reflete nas nossas organizações. Vivemos no Rio de Janeiro, uma cidade extremamente desigual, com cada vez mais políticas que promovem essa disparidade. Buscamos ser uma torcida mais plural e temos uma relação boa com as demais torcidas, participamos nas decisões coletivas e somos ouvidos sobre as nossas posições em prol do que é melhor para o Vasco”.


Prints retirados do X  (Antigo Twitter)
Prints retirados do X  (Antigo Twitter)

“As pessoas têm uma mente fechada em relação ao novo. Mas hoje em dia, as maiores festas das arquibancadas são organizadas pelas barras, em todos os clubes do Rio, não só no Vasco. Não queremos ser argentinos, apenas acreditamos que o nosso jeito de torcer é o melhor para o nosso clube”, afirma Julia Candido em relação ao estigma que as barras sofreram ao longo do tempo. Já Foca acredita que essa resistência vem diminuindo: “Hoje somos até inspiração, as torcidas tradicionais realizam atividades inspiradas na originalidade das barras. A GDA conquistou o reconhecimento tanto dos torcedores comuns, quanto das demais organizadas.” Apesar da descrença e das críticas, as barras conquistaram seu espaço nas arquibancadas do Brasil.


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