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De olho na Copa de 2027, escolinha feminina de futebol ganha espaço no Rio

há 1 dia
4 min de leitura

O projeto Malaguetas Futebol Feminino, na Lagoa, mostra como iniciativas exclusivas para mulheres podem preparar o terreno para o Mundial em casa


Por: Lucas Diniz


Campo das Malaguetas na Praça Marcos Tamoyo, Lagoa - Foto: Lucas Diniz
Campo das Malaguetas na Praça Marcos Tamoyo, Lagoa - Foto: Lucas Diniz

Com a Copa do Mundo Feminina de 2027 confirmada no Brasil, iniciativas voltadas exclusivamente para mulheres ganham cada vez mais espaço no Rio de Janeiro. Um exemplo é a Malaguetas Futebol Feminino, escolinha localizada na Praça Marcos Tamoyo, na Lagoa, que aposta no esporte como uma ferramenta de inclusão, resistência e empoderamento.


Nascidas no chamado “país do futebol”, as mulheres foram sistematicamente afastadas desse esporte ao longo de décadas. Com muita luta, alguns espaços vão sendo conquistados pouco a pouco, buscando ampliar a participação feminina no cenário futebolístico. 


Na iminência do Mundial inédito no Brasil, cresce o interesse pela modalidade no país. Segundo dados do Google Trends divulgados pela FSports, as buscas por termos relacionados à categoria aumentaram 200% no YouTube e 120% no Google nos últimos cinco anos. Entre os assuntos mais buscados, aparecem dúvidas sobre “como ingressar em um time de futebol feminino” e “quanto ganha uma jogadora de futebol”. Essa pesquisa mostra que há um interesse que extrapola a vontade de consumir o esporte e atinge também mulheres que sonham em se tornar atletas profissionais. 


Em meio a esse cenário, foi fundada, em junho de 2023, pela publicitária Beatriz Monteiro e pela designer Larissa Freitas, a Malaguetas Futebol Feminino, escolinha de futebol exclusiva para mulheres. As aulas acontecem às terças e quintas-feiras, com quatro horários pela manhã, entre 7h e 11h, e três à tarde, entre 15h e 17h. O projeto foi criado para que mulheres de todas as idades, classes sociais e níveis técnicos possam praticar futebol por meio de uma metodologia desenvolvida exclusivamente para elas.


O planejamento começou ainda em 2021, quando as duas amigas, Beatriz e Larissa, que jogavam juntas pelo time universitário da PUC-Rio, perceberam a falta de espaços específicos para mulheres interessadas em praticar futebol na cidade. A carência não se limitava às escolinhas. Faltavam também locais para as tradicionais “peladas” e ambientes competitivos voltados ao público feminino. A partir dessa experiência, as duas passaram a idealizar um espaço próprio para mulheres que desejavam jogar futebol.


Transformar a ideia em realidade, porém, não foi simples. As sócias enfrentaram dificuldades para conseguir um espaço que viabilizasse a escola. Inicialmente, tentaram contato com clubes, mas o projeto voltado ao futebol feminino encontrou pouca abertura. Após algumas negativas, conseguiram firmar um acordo com a Prefeitura do Rio, permitindo que os treinos acontecessem na quadra society recém-reformada da Praça Marcos Tamoyo.

O campo recém reformado é de uso exclusivo da escolinha - Foto: Lucas Diniz
O campo recém reformado é de uso exclusivo da escolinha - Foto: Lucas Diniz

Os obstáculos enfrentados pelas mulheres atualmente refletem décadas de preconceito e exclusão no futebol. Apesar de os primeiros registros de partidas femininas no Brasil terem cerca de um século, a modalidade foi proibida entre 1941 e 1979, com base na falsa e preconceituosa ideia de que seria incompatível com a “delicadeza feminina”. A modalidade só foi  regulamentada em 1983 e os primeiros campeonatos surgiriam anos depois, contribuindo para uma diferença histórica de investimentos em relação ao futebol masculino, que, nesse mesmo período, avançava em visibilidade e profissionalização.


A proibição, oficializada pelo Conselho Nacional de Desportos em 1941, classificava o futebol como incompatível com a “natureza” da mulher e incluiu a modalidade em uma lista de esportes considerados inadequados ao público feminino, ao lado de lutas e outras práticas de contato físico. Como consequência, gerações inteiras de mulheres foram impedidas de competir oficialmente, atrasando a profissionalização e os investimentos no futebol feminino brasileiro. Segundo especialistas, esse atraso ainda se reflete nas diferenças de patrocínio, salários e visibilidade entre as modalidades masculina e feminina.


A Malaguetas Futebol Feminino surge também como um espaço para romper barreiras de gênero no esporte, promovendo a modalidade e ampliando o acesso de mulheres de diferentes classes sociais. Para isso, o projeto conta com um sistema de bolsas. A cada seis alunas pagantes, é aberta uma vaga para uma aluna social. As bolsistas passam por uma entrevista, na qual são avaliadas condições pessoais e familiares, bem como o motivo pelo qual desejam praticar futebol. Com essa análise, é definido o percentual  da bolsa, que pode ser de 50%, 70% ou 100%. O valor cheio da mensalidade pode chegar a R$ 260 com duas aulas por semana, ou R$ 200 com uma. 


O modelo das Malaguetas não é um caso isolado. Nos últimos anos, iniciativas semelhantes surgiram em diferentes cidades do Brasil, impulsionadas tanto pelo crescimento da audiência do futebol feminino quanto pela busca de mulheres por espaços onde possam praticar o esporte sem julgamentos ou constrangimentos. Esse movimento ganhou força principalmente após as Copas do Mundo femininas, que ampliaram a visibilidade da modalidade e despertaram o interesse de meninas e mulheres que antes não se viam representadas no esporte.


Esse cenário tende a ganhar ainda mais força com a realização da Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil. O Rio de Janeiro será palco da abertura e da final da competição, no Maracanã. Para projetos como a Malaguetas, a expectativa é que o Mundial funcione como uma vitrine capaz de aproximar ainda mais mulheres e meninas do esporte, reforçando a demanda por espaços de formação exclusivamente femininos e ampliando a visibilidade de iniciativas que já trabalham pela base antes mesmo da realização do torneio.


O acompanhamento das atletas, sejam elas bolsistas ou não, é realizado com o auxílio da psicóloga Nathalia Melo. Para Larissa, durante a elaboração da metodologia, era fundamental contar com suporte psicológico profissional. De acordo com ela, esse apoio orienta não apenas as atletas, mas também as professoras, o funcionamento dos treinos e as avaliações.


Além da assistência psicológica, as atletas contam com acompanhamento nutricional. Cada turma é orientada por, pelo menos, uma professora e uma estagiária. Dora Lana, estudante de Educação Física na UFRJ e estagiária na Malaguetas há um ano, afirma que muito do aprendizado da faculdade pode ser aplicado no trabalho. “Aqui temos muita liberdade na equipe. Aprendo muito com as outras professoras e até com as alunas, mesmo sem elas saberem. O mais importante do nosso trabalho é mostrar para elas que são bem-vindas ao mundo do futebol.”


O projeto representa um espaço de acolhimento e transformação para meninas e mulheres que, além de praticar uma atividade física, podem se permitir sonhar com as possibilidades proporcionadas pelo esporte. Em um país que ainda busca corrigir décadas de exclusão, a Malaguetas Futebol Feminino mostra como o futebol também pode ser um instrumento de mudança social e de impacto direto na vida das mulheres.

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