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Diante de falhas na fiscalização, mulheres assumem a própria proteção no vagão feminino do metrô

há 4 dias
4 min de leitura

Seis meses após a lei estadual que ampliou o horário do vagão feminino, usuárias relatam avanços no serviço, mas contam que raramente veem agentes checando o espaço


Por: Clara Calvente


Vagão feminino por volta de 12:30. Foto: Clara Calvente
Vagão feminino por volta de 12:30. Foto: Clara Calvente

“Eu já fui muito assediada dentro do metrô, de passarem a mão em mim mesmo. Por isso que eu comecei a vir mais para o vagão feminino, antes mesmo dele se tornar exclusivo para mulheres o dia todo.” Quem conta é a Bianca de Jesus, de 19 anos. E a experiência de Bianca está longe de ser um caso isolado na cidade do Rio. Relatos de violência e assédio no transporte público e, por isso, muitas mulheres optam pelo vagão feminino como uma alternativa para se sentirem mais seguras durante a viagem.


O início do ano de 2026 foi marcado por uma série de casos de violência contra mulheres, gerando uma cobrança por medidas mais severas em relação à segurança das mulheres nos transportes públicos. Uma delas foi a lei estadual 11.143, sancionada no dia 23 de março, que torna o vagão de uso exclusivo feminino durante todo o horário de funcionamento do metrô.


O Metrô Rio já contava, desde 2006, com um vagão feminino. É o segundo carro quando o metrô segue no sentido Botafogo/Barra da Tijuca, ou o penúltimo quando o trem segue sentido Pavuna/Uruguai. Porém, eles só eram exclusivos para mulheres nos horários de maior movimentação, das 6h às 9h e das 17h às 20h. Fora dessa janela, faltavam espaços seguros para elas dentro do veículo. 


Aviso no chão das estações, na porta do vagão feminino. Foto: Clara Calvente
Aviso no chão das estações, na porta do vagão feminino. Foto: Clara Calvente

O carro exclusivo é visto por muitas usuárias como uma conquista em favor da segurança feminina, além de representar um espaço de maior liberdade e conforto no transporte público. A proposta é oferecer às mulheres um ambiente em que possam se sentir mais à vontade durante o trajeto. “É o pouco que a gente tem, mas é funcional. Algo positivo. Acho que dá uma sensação maior de segurança”, conta Lívia Andrade, de 49 anos.


O que não falta é sinalização. Adesivos cor-de-rosa estão espalhados pelo chão da estação, exatamente nos pontos onde as três portas do carro se abrem, além de ocuparem as paredes, tanto do lado de fora quanto do interior do metrô. As placas informam sobre o novo horário de funcionamento do espaço exclusivo. A diferenciação também aparece na publicidade, já que muitas empresas escolhem o carro feminino para veicular suas campanhas e explorar sua identidade visual, o que contribui para destacá-lo dos demais.


Divisa entre os vagões. Foto: Clara Calvente
Divisa entre os vagões. Foto: Clara Calvente

Além disso, o metrô conta com ações fora das estações, como em alguns jogos no Maracanã, ocasiões em que podem acontecer mais invasões masculinas no ambiente. Um vídeo que relembra a mudança de horário de funcionamento. Em nota, o Metrô compartilha que “Entre as informações, o vídeo destaca: “Carro das mulheres no metrô, o espaço é só delas. Todos os dias, durante toda a operação”. A vinheta faz parte da campanha educativa da concessionária, veiculada nas telas digitais das 41 estações e nas TVs das composições. Outra iniciativa importante para reforçar a comunicação no sistema metroviário foi a atualização dos avisos sonoros e dos adesivos nos trens e nas plataformas.”


Ultimamente, as usuárias têm percebido uma mudança significativa no fluxo de passageiros que utilizam o espaço com frequência. Não apenas menos homens entram no carro exclusivo, como também mais mulheres se sentem à vontade para utilizá-lo. “No início, os homens entravam com mais frequência. Às vezes, eles retrucavam dizendo que era só até às nove horas, e a gente precisava explicar sobre a nova lei. Mas depois melhorou muito. Raramente vejo um homem”, continua Lívia, que já tinha o hábito de utilizar o vagão antes mesmo da ampliação do horário de funcionamento.


A mudança também é percebida no comportamento das passageiras. É comum encontrar mulheres mais relaxadas e à vontade, transformando o trajeto em uma oportunidade de lazer ou de realizar atividades que exigem maior concentração. Algumas aproveitam o percurso para ler, enquanto outras fazem trabalhos manuais, como crochê e tricô, em um ambiente pensado para elas.


Lívia se sente à vontade para ler durante a viagem. Foto: Clara Calvente
Lívia se sente à vontade para ler durante a viagem. Foto: Clara Calvente

Apesar da ampla sinalização, ainda é comum que alguns homens, muitas vezes por engano, entrem no carro exclusivo. Nessas situações, muitas mulheres não se sentem confortáveis para abordá-los ou pedir que se dirijam a outros carros. “Não falo com os homens que entram por uma questão de segurança. Vejo muitas mulheres que falam. Alguns homens respeitam, mas outros não”, explica Eliana Rosa, de 47 anos.


Já as passageiras que optam pela abordagem ressaltam a importância de orientar os homens sobre a exclusividade do espaço. “Quando vejo um homem entrando no vagão, eu aviso e acho que outras mulheres deveriam fazer o mesmo. Às vezes, elas não se incomodam, mas é um direito nosso. Então, acho que o mínimo é avisar”, completa Bianca.


As estações do metrô contam com agentes de segurança, e uma de suas funções é certificar-se de que as regras do vagão estão sendo cumpridas. Mesmo assim, a maior parte das mulheres se vê fazendo esse trabalho. "Acho que é raro os seguranças virem checar se tem homens erradamente no vagão, o normal é as próprias mulheres tomarem providência se for preciso", disse Carolina Veirano, de 21 anos.


Eliana, por sua vez, aponta uma diferença na presença dos agentes ao longo do trajeto: "A gente até vê alguns seguranças lá pra Zona Sul, mas eu, que moro na Baixada, não costumo ver muitos durante o meu percurso." Lívia, que também não costuma vê-los atuando diretamente nos carros, acredita que isso pode estar relacionado ao fato de muitas mulheres já se sentirem responsáveis por proteger e fazer valer o espaço exclusivo.


Em nota oficial enviada ao Rampas, a assessoria de imprensa do MetrôRio afirmou que realiza fiscalização nos vagões: “As equipes da concessionária orientam os passageiros quanto à nova regra, com rondas constantes dentro do vagão exclusivo e nas plataformas e, quando necessário acionam o apoio da PM.”

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O site Rampas é um projeto criado por alunos de jornalismo da Uerj, sob supervisão da professora Fernanda da Escóssia.

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