Entregadores de aplicativo criam pontos de apoio e espera nas praças do Rio
- Júlio César Mariano

- há 23 minutos
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Praticamente sem apoio institucional das gigantes do setor de entregas, trabalhadores por aplicativo precisam se virar nos espaços públicos da cidade; Praça das Nações, em Bonsucesso, se destaca como um dos locais estratégicos
Por Júlio César Mariano
Na segunda maior metrópole brasileira, milhares de trabalhadores por aplicativo sofrem com condições precárias de trabalho, em jornadas de trabalho que chegam facilmente às 12 horas diárias. Para muitos, a saída tem sido ocupar as praças e largos da cidade. A Praça das Nações, em Bonsucesso, é um desses pontos informais escolhidos pelos trabalhadores. Batizada com esse nome em 1914, em homenagem aos países aliados que lutaram contra a Alemanha na Grande Guerra (1914-1918), a praça é hoje o principal ponto de referência do bairro, e uma das suas particularidades é ter virado um ponto de encontro dos entregadores por aplicativo.

Os entregadores encontraram na praça um local estratégico para se estabelecer enquanto aguardam novas chamadas. Entre uma corrida e outra, a praça passa a funcionar como um ponto de parada, onde eles podem descansar por alguns minutos, conversar com outros entregadores e permanecer próximos ao comércio da região, mantendo a atenção nos smartphones. A variação no tempo de entrega entre as corridas faz com que eles busquem um local para se manter.
“Os horários variam muito. Aos fins de semana por volta do horário de almoço e jantar é quando tem mais movimento, mas às vezes tem promoção em outros dias, como segunda-feira, que faz com que a gente tenha mais entregas nesses dias também”, conta o entregador Amauri Marçal, de 38 anos.
No entorno da Praça das Nações e no centro de Bonsucesso, estão algumas filiais das maiores redes de varejo do Brasil, como Casa & Vídeo, Ponto Frio, Amigão, Magal, Kik e Magazine Luiza. Além disso, redes de fast-foods como McDonald's, Subway, Habib's, Bob‘s, entre outras, também possuem filiais no bairro do subúrbio da Leopoldina. Perto dali, fica a estação de trem de Bonsucesso do ramal Saracuruna, cuja estrutura abriga o Teleférico do Alemão, desativado desde 2016, que fora construído para conectar o bairro às favelas do Complexo do Alemão.
Amauri trabalha como entregador há dois anos e conta o motivo de ele e os demais entregadores se reunirem por ali: “justamente pelo comércio. Aqui se torna um ponto estratégico, por que está perto de tudo, tem muito fast-food, muitos varejos, então ficar por aqui facilita na hora da entrega. A gente usa aqui também como ponto de descanso, por estar perto de casa”.
O mesmo cotidiano é vivenciado pelo entregador André Gonçalves, de 28 anos: “Eu fico aqui porque é perto de casa. Dá tempo de ir lá, almoçar, e depois voltar para o trabalho sem perder muito tempo”. É comum após uma corrida a interação com os demais colegas de ofício, regada a conversas sobre o cotidiano estafante a qual estão submetidos.
Na praça, é possível ver os entregadores descansando, mas atentos ao celular. Ao redor deles, é possível ver dezenas de bicicletas e motos com as mochilas fornecidas pelas empresas de entrega. Amauri também revela que a proximidade de casa, muitos deles residem no Complexo do Alemão, faz com que a relação entre os entregadores seja de maior proximidade - “a gente mora no mesmo lugar, praticamente, então na hora de vir para cá facilita, a gente fica aqui conversando e esperando as corridas.”
Entre às 18h e 21h, período de maior concentração de entregadores na praça, o movimento se alterna entre espera e corrida. Nas mochilas estão alguns itens indispensáveis para o trabalho desses profissionais, como carregadores portáteis e agasalhos para dias de frio. Alguns outros preferem ficar mais isolados do restante do grupo, principalmente quando estão em atividade, mas também utilizam a Praça das Nações como ponto de parada. “A relação de convivência é boa. A gente fica conversando sobre o movimento e as dinâmicas. Considero eles mais como colegas de trabalho, não tem rivalidade”, complementa André.
Embora cada entregador trabalhe de forma individual, eles dizem que é melhor esperar pelas corridas juntos. A convivência, no entanto, não interfere diretamente na rotina de trabalho. “Somos colegas de trabalho, mas também somos amigos. Moramos todo mundo perto e a gente vem para cá esperar o tempo das entregas, então acaba que temos muita convivência”, ressalta Amauri, que complementa - “a gente fica mais na rua do que em casa”.
A rotina de quem trabalha nos aplicativos é intensa. Segundo dados do IBGE, cerca de 485 mil trabalhadores atuam em plataformas de entrega, com 6 a 7 dias de trabalho, com jornadas de 10h a 14h. Em média, os entregadores acumulam 46 horas trabalhadas semanalmente. “Não temos muitos horários fixos, tem dia que eu chego às 11 horas e só saio às 23h, ou até mais. Mas enquanto tem vezes que o celular apita toda hora e a gente nem fica aqui, tem outras que não apita nenhuma vez”, afirma Amauri.
As empresas de serviços de entrega por aplicativo como Ifood e 99 Food possuem alguns poucos espaços que servem como “pontos de apoio” para os entregadores na cidade do Rio de Janeiro. Segundo o site oficial do Ifood, o local possui “uma estrutura completa com banheiro, água, bancos para descanso, tomadas, internet e área de refeição”.

As paradas institucionais dos aplicativos, porém, contemplam áreas da cidade irrisórias. Enquanto o Ifood possui apenas nos bairros do Maracanã e em Botafogo, o 99 Food estabeleceu seus pontos de apoio na Praça da Bandeira, Barra da Tijuca e em Botafogo. O Ifood também conta com a parceria da Tembici, empresa focada em mobilidade urbana, para estabelecer um ponto no Catete e, ainda, com o Espaço da Mulher Entregadora, na sede da organização Black Sisters in Law, na Penha, além de pontos em parceria com restaurantes para acolher os entregadores. Muito pouco, tendo em vista o faturamento bilionário de R$10 bilhões divulgado em março deste ano, alta de 36% referente ao mesmo período do ano passado.
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