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‘Passe’, ‘Taxa Zero’ e ‘+Entregas’: como novas medidas da Uber, 99 e iFood impactam rotina e ganhos dos trabalhadores

Atualizações nas plataformas precarizam setor e mobilizam motoristas e entregadores em paralisação nacional


Por Gabriela Martin


Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil 
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil 

Quando o assunto é transporte ou entrega, Uber, 99 e iFood estão entre os aplicativos mais conhecidos do país. Por trás do sucesso dessas empresas, estão motoristas e entregadores que viabilizam seu funcionamento. Enquanto as plataformas ampliam seus negócios, esses trabalhadores enfrentam condições cada vez mais precárias. Em 2026, as políticas “+Entregas”, “Passe para Motoristas” e “Taxa Zero” foram adotadas, modificando a dinâmica de ganhos e gerando uma repercussão negativa entre os trabalhadores.


A promessa para quem trabalha nessas plataformas era autonomia, flexibilidade e liberdade para definir os próprios horários. Mas, na verdade, o que acaba se revelando é uma relação pouco transparente, além da deterioração das condições desses profissionais a partir de medidas unilaterais que modificam as dinâmicas de trabalho, taxas e ganhos.


Entre os entregadores, o iFood vem sendo alvo de críticas ao instituir o “+Entregas”, em fevereiro de 2026. Em uma tentativa de pagar menos pelo serviço, a atualização opcional combina um valor fixo por tempo disponível com um adicional de cerca de R$3 por rota concluída. No entanto, o entregador precisa cumprir estritamente regras estabelecidas para conseguir o valor prometido, o que não acontece em grande parte dos casos. É preciso estar online 90% do tempo do bloco reservado e são toleradas no máximo duas corridas canceladas ou rejeitadas. Na prática, isso limita a possibilidade de recusar entregas, mesmo quando envolvem locais de risco ou trajetos muito distantes, uma situação que pode ser ainda mais exaustiva para quem trabalha de bicicleta. 


Assim, quem aceita trabalhar na modalidade “+Entregas” recebe cerca de R$3 por entrega ao invés de R$7 (mínimo na modalidade “Nuvem”, a padrão) e acaba ganhando vantagens em relação aos outros, pois mais rotas são destinadas a esses. Kaua Azevedo, 21 anos, trabalha como entregador na plataforma e conta como a medida acabou dividindo a categoria. “Isso causa muita discórdia entre nós, entregadores, porque a gente deveria se unir contra o ‘+Entregas’. Se tem gente disposta a trabalhar por R$3, por que eles (iFood) voltariam com as taxas de R$7, se podem receber mais fazendo a gente ganhar menos?”


A empresa alega em seus canais oficiais que a modalidade “+Entregas” é opcional e visa a otimizar as corridas, oferecer maior estabilidade, previsibilidade de ganhos por período e rotas mais curtas, sem prejudicar o modelo tradicional.


Em maio de 2026, a Uber lançou no Brasil o "Passe para Motoristas", que consiste em cobrar do motorista uma taxa fixa descontada automaticamente de seu faturamento. O motorista deve optar entre dois planos, o “Passe por tempo” (em que se paga por 24 ou 72 horas trabalhadas) ou o “Passe por ganhos” (no qual se estabelece um valor como meta e o passe se encerra quando esse valor é atingido ou quando acaba o prazo de 180 dias). Os valores variam de R$19 a R$102. A empresa alega em seu site que a política foi criada com o intuito de zerar a taxa de serviço cobrada por corrida e trazer previsibilidade financeira aos parceiros, garantindo que o motorista detenha a totalidade dos ganhos acumulados após quitar o valor. 


Orlando Leite, de 55 anos, motorista e entregador da Uber e da 99 há mais de dois anos, disse que a medida o pegou desprevenido.“Eu não tive a opção de escolha, a taxa foi entrando automaticamente e só percebi depois que já estava sendo aplicada”, reclama, explicando que não houve transparência e nenhum aviso prévio. Ele ainda concluiu que não viu vantagem alguma após a mudança.


Em seguida, no dia 22 de julho, a 99 seguiu o mesmo caminho e lançou a “Taxa Zero”. O modelo é opcional, mas quem assinou o plano relata uma queda no número de pedidos e o barateamento das viagens. “Desde que atualizou, não entra mais dinâmico (sistema que aumenta o valor das corridas quando a procura por carros é maior do que o número de motoristas disponíveis), nem em horário de pico. Eles estão barateando as corridas para os passageiros e estão ganhando também da gente, porque estamos pagando a taxa”, disse Wytani Gabriel, em suas redes sociais. Wytani é motoboy da 99 e também cria conteúdo mostrando seu dia a dia, concentrando milhares de seguidores.


As plataformas argumentam que assim o motorista fica com o valor integral das corridas. No entanto, até o momento não há dados que comprovem o pagamento total pelas atividades dos colaboradores. O que acontece na prática é o motorista pagar uma taxa, além dos gastos com manutenção do veículo e gasolina, para conseguir trabalhar e ainda assim não ter garantia de lucro ao final do mês.


Além dessas três medidas, a rotina desses trabalhadores envolve outros desafios. Orlando, motorista e entregador, pontuou que a falta de assistência em caso de acidentes ou afastamentos por saúde é um dos principais obstáculos no cotidiano das corridas e entregas. Além disso, também se discute a instabilidade de renda e a baixa remuneração, principalmente quando analisamos o tempo trabalhado e os custos com combustível, manutenção, alimentação e internet. Soma-se a isso a limitação de garantias trabalhistas básicas como férias remuneradas, 13º salário, FGTS e seguro-desemprego.


A gravidade desse cenário reflete nos indicadores da "Ação da Cidadania", que mapeia a vulnerabilidade social do trabalho plataformizado. Segundo pesquisa divulgada em 2024, 69,3% dos entregadores recebem menos de um salário mínimo, enquanto 3 em cada 10 enfrentam algum grau de insegurança alimentar. Os números escancaram o paradoxo cruel do modelo atual: quem transporta a comida, frequentemente, não tem o que colocar na própria mesa. 


Diante dessas insatisfações somadas ao impacto dos novos modelos adotados pelos aplicativos, motoristas e entregadores organizaram uma paralisação nacional entre os dias 31 de julho e 2 de agosto contra a Uber, 99 e iFood. No Rio de Janeiro, no dia 31, os manifestantes ocuparam as ruas em um trajeto que se estendeu de Campo Grande ao Centro. Entre as reivindicações do ato estavam: exigência de valor mínimo de R$1,50 por quilômetro rodado em corridas de passageiros; fim do ‘+ Entregas’ e o fim de modelos de assinatura como o “Passe para motoristas” e a “Taxa Zero”.


Durante o protesto, representantes conseguiram entrar nas sedes da Uber e da 99, para reivindicar o que estava em pauta. Jovan Nascimento, motoboy que representou a classe no encontro com a 99, destacou a situação atual em suas redes sociais: “Fomos ouvidos, agora precisamos continuar na luta; se não surtir efeito, voltamos e cobramos de novo até que ocorra alguma mudança”. 



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