Grupo de leitura para mulheres une afeto e resistência
Nas cafeterias da Zona Sul do Rio de Janeiro, projeto atrai quem deseja debater ideias, livros e jogos
Por: Clara Calvente

Entre a correria das cidades e o machismo que toma conta da sociedade, grupos de mulheres se juntam para ler, incentivar a convivência feminina e promover práticas de lazer saudáveis. Provando que mecanismos que “afastam”, também podem, algumas vezes, ser agentes de uma inesperada aproximação.O LeituraDelas é um exemplo desses grupos de encontro. Pensado por amigas que estavam cansadas de não ter tempo para se encontrar, o clube de leitura nasce abrindo espaço em suas agendas para que elas finalmente possam se ver. O pequeno grupo cresceu e se tornou um verdadeiro ponto de encontro, onde as meninas se juntam, conversam, debatem sobre o livro, suas vidas, jogam jogos ou simplesmente dedicam um momento para si.
Isabel Temperini, de 23 anos, é uma das fundadoras do projeto e conta que o clube surgiu a partir de uma meta que ela e suas amigas criaram no início do ano: ler mais e se conectar. O que inicialmente era um grupo fechado com cinco amigas, se expandiu à medida que colegas, primas, cunhadas e outras mulheres também se interessavam pela ideia. No segundo encontro oficial, que ocorreu no dia 26 de julho, o número de participantes do grupo chegava a doze. “Eu senti que existia uma falta de amizades femininas em que a gente pudesse só se encontrar e ser mulher e falar sobre o que a gente quisesse.” adicionou.
Os encontros do grupo acontecem mensalmente, em diferentes cafés espalhados principalmente entre a Zona Sul e a Zona Norte do Rio. De início, as participantes debatem suas opiniões sobre a leitura do mês anterior, apesar de as conversas raramente se manterem sobre o livro e rapidamente se expandirem para outros assuntos. Depois disso, são propostas dinâmicas de jogos, priorizando duplas entre meninas que não se conhecem, para quebrar o gelo e fazer com que o encontro flua melhor. Muitas vezes o encontro acaba durando mais do que o previsto originalmente.

Outro ponto positivo, e um dos objetivos do grupo, é a expansão do gosto literário das participantes. O intuito original do clube era ser voltado para romances, gênero de interesse da maior parte das integrantes. Ao longo do desenvolvimento do projeto, as meninas resolveram que seria mais interessante explorar livros de outros gêneros, entendendo que uma das propostas dos encontros também é sair da sua zona de conforto. O livro sorteado para o segundo encontro, O massacre da família Hope, fez com que muitas delas entendessem sua posição em relação aos livros de suspense. Os encontros também ajudam a desenvolver o hábito da leitura, como conta a participante Bianca Costa, de 23 anos. Ana Luiza Fernandes, de 27 anos, também diz que sentia falta de incentivo para manter esse hábito, o que encontrou no Leituradelas.
É comum que esse tipo de encontro também incentive mulheres a se desafiarem e a participarem de novas experiências.“Eu não conhecia ninguém do grupo anteriormente, só a Isabel. Eu achei muito interessante quando ela me mandou mensagem falando do grupo, até porque eu gosto muito de ler. Só que é muito fora da minha zona de conforto sair sem conhecer muitas das pessoas que vão estar no lugar. Sair da sua zona de conforto, mesmo que seja pra você ficar aqui, à toa, jogando, sair com pessoas que você não conhece, é incrível.”, disse Luísa Bernardo, de 22 anos.
Além disso, as participantes do grupo descrevem a importância e o impacto desse tipo de encontro na vida delas. “Eu sou uma pessoa que me cobro muito na minha semana e finais de semana trabalhando, então, para mim, estar em um domingo, à tarde inteira, ‘à toa’, conversando, jogando é também sair da minha zona de conforto, é absurdo. Esse tempo em que estou aqui, com meu celular desligado, me priorizando, jogando uno e bingo com minhas amigas é um tempo que todo mundo precisa e que nós, como mulheres, temos o hábito de nos privar desse momento. Ser um grupo incentiva isso também”, afirma Ana Beatriz Bastos, de 22 anos. Já Julia Curty, de 21 anos, acredita que é maravilhoso ser possível arranjar um tempo para juntar mulheres que pensam juntas, que se entendem e se conectam.

Por fim, o clube do livro se torna muito mais do que apenas lugar para ler. Ele é um espaço de encontros, trocas, vivências e uma fuga da rotina corrida que compõe a vida de várias mulheres. As histórias lidas são apenas os capítulos iniciais de uma narrativa que elas, todos os meses, se comprometem a construir juntas.
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