“Viver ou gravar, eis a questão”: como o celular afeta a experiência dos eventos culturais
Entre shows, peças e sessões de cinema, o celular nem precisa de ingresso para fazer parte da plateia - mas muitas vezes perturba a experiência de quem está ao lado
Por Karen Teixeira

As luzes se apagam e a banda entra em cena. Antes mesmo do primeiro acorde, dezenas de celulares já estão sendo levantados para gravar cada movimento no palco. Alguns registram apenas segundos, outros permanecem apontados para o palco durante músicas inteiras.
Na sala de cinema, um único celular aceso já quebra o clima do filme. No teatro, uma notificação é suficiente para interromper uma cena e atrapalhar os atores. Para quem está sentado atrás de uma dessas pessoas, um celular levantado pode significar perder parte do espetáculo.
O celular virou parte indispensável do cotidiano e agora ocupa um lugar dentro das experiências culturais. Fotografar, filmar e publicar cenas de um espetáculo são mais necessariamente atividades separadas de assistir a um show, uma peça ou um filme. Para uma parcela do público, elas fazem parte da própria experiência.
Mas onde termina a lembrança e começa o incômodo?
Uma pesquisa anônima realizada por meio de formulário online para esta reportagem, com 148 participantes, mostra que 96,6% afirmaram já ter presenciado alguma situação desagradável envolvendo o uso de celulares enquanto estavam na plateia.
A maioria expressiva dos participantes reside no estado do Rio de Janeiro, que concentra a maior parte do público, seguido por São Paulo. O levantamento contou ainda com uma representatividade pontual de respondentes de diversos outros estados do país, incluindo Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, Ceará, Sergipe, Distrito Federal, Bahia e Rio Grande do Norte.

Entre as situações relatadas pelos participantes, o uso da câmera aparece com destaque. Dos participantes que afirmaram já ter passado por alguma experiência incômoda, 94 disseram ter visto alguém gravando ou tirando fotos. O uso das redes sociais foi mencionado por 88 pessoas, enquanto 82 relataram situações envolvendo mensagens. Ligações e vídeos também apareceram entre os motivos de incômodo, citados por 65 e 49 participantes, respectivamente. Outros problemas descritos vão desde o brilho da tela em ambientes escuros até braços levantados durante apresentações e sons que interrompem momentos de silêncio.
“Eu estava assistindo Wicked e precisei chegar no ouvido da mulher na minha frente e dizer ‘o brilho do seu celular tá atrapalhando e eu não acredito que você tá ouvindo áudio no meio da peça’”, relatou uma participante da pesquisa. Segundo ela, essa situação fez com que ela perdesse uma parte da cena que estava acontecendo no palco.
Apesar das situações incômodas, os próprios espectadores parecem relutantes em abandonar completamente o uso do celular durante o tempo do espetáculo. Dos entrevistados na pesquisa, 83 afirmaram que quase sempre costumam fotografar ou filmar quando vão a algum espetáculo, enquanto 65 disseram fazer isso raramente ou nunca. E o principal motivo para quem registra esses momentos não é necessariamente postar ou publicar.
O fenômeno conhecido como amnésia pós-show faz com que os espectadores de grandes concertos relatem episódios de perda temporária de memória sobre o evento. Em uma reportagem publicada em 2023 pela BBC News, a psicóloga da música Michelle Phillips da Royal Northern College of Music explica que o fenômeno não significa necessariamente esquecer o evento inteiro, e sim registrar algumas partes da experiência. Segundo a especialista, a intensa carga emocional e a sensação de que o tempo passou muito rápido dificultam a percepção de todos os detalhes, principalmente em espetáculos com muitos estímulos visuais e sonoros. Dessa forma, a experiência permanece na memória mesmo com alguns momentos não lembrados com clareza.
Durante os momentos de extrema euforia, não necessariamente só em shows, o organismo libera altos níveis de cortisol e adrenalina, os hormônios do estresse. Essa liberação pode prejudicar a capacidade do cérebro de processar e consolidar as lembranças na memória de longo prazo.

Com isso, boa parte dos participantes mencionaram que guardar uma lembrança é uma das razões para utilizar o celular. Registrar algo para rever depois, compartilhar nas redes sociais ou mostrar aos amigos ou familiares também apareceram na lista de motivos.
Os resultados colocam em perspectiva a discussão que muitas vezes é tratada só como uma disputa de performance, onde há aqueles que vivem o momento e aqueles que só querem postar. Para grande parte do público consultado, fotografar ou filmar também é uma maneira de conservar uma experiência que consideram importante. Nos shows, esse tópico ganha ainda mais peso quando se trata de um artista que raramente vem ao país ou de uma apresentação aguardada durante muito tempo.
“Eu mesma gosto de ter registros dos shows só para guardar de lembrança mesmo, a maioria das vezes eu nem posto metade das coisas que registro. É mais pra mim do que para os outros”, escreveu uma participante. Dessa forma, o registro não se configura como criação de conteúdo, e sim como parte de um acervo pessoal de boas memórias vividas.
O comportamento em cada ambiente
Em um show, levantar o celular para registrar uma música ou um momento esperado costuma ser mais naturalizado. Em uma peça ou em uma sessão de cinema, porém, a mesma atitude pode interferir diretamente na experiência de quem está ao redor. A diferença está, também, no próprio funcionamento desses espaços. Um show costuma ser um ambiente mais barulhento e dinâmico, enquanto cinemas e teatros dependem, em diferentes níveis, do escuro, do silêncio e da concentração do público.
Uma das respostas resumiu essa distinção: nos shows, registrar o momento é mais aceitável, enquanto no teatro e no cinema o aparelho interfere mais na atenção de todos à sua volta. Outra resposta foi ainda mais direta: “Em shows, acho que gravar ou tirar fotos faz parte da experiência, mas existe um limite; é preciso ter bom senso.” A ideia de ter um limite no uso do aparelho foi algo frequente nas respostas. Não é necessariamente o ato de tirar uma foto que incomoda os demais, mas o momento, a duração e a forma como ele é feito.
A recepcionista Marcelle Suanne, que trabalha na Cidade das Artes durante a temporada de Wicked, atua orientando o público e como lanterninha durante as sessões da peça. O trabalho de profissionais como ela é essencial para inibir as gravações ilegais por conta dos direitos autorais e para preservar a experiência dos outros espectadores.
Quem leva “lanternada”, como dizem os fãs, é quem está claramente filmando o palco. Apenas ver uma mensagem de forma rápida não costuma gerar nenhuma intervenção. Marcelle conta que a quantidade de abordagens varia, mas pode chegar a cerca de 10 a 15 pessoas por sessão.

As regras a serem seguidas pela equipe dependem de cada produção. Enquanto algumas peças são mais flexíveis em relação aos registros pontuais, outras proíbem completamente qualquer gravação. Em Wicked, por exemplo, não é permitido filmar ou fotografar nada além dos agradecimentos. Em certos momentos épicos do espetáculo é possível avistar diversos lasers verdes misturados com a fumaça e iluminação do palco. Quando um espectador insiste em gravar mesmo após a “lanternada”, a situação é encaminhada direto para a produção do espetáculo. “A gente está lá para abordar e falar que não pode”, explica Suanne.
Quando o problema não é o celular, mas o assento que ele ocupa sem comprar o ingresso
O incômodo não parece estar só no uso do aparelho e, sim, no espaço que ele ocupa dentro de uma experiência coletiva. Ter uma tela acesa pode chamar atenção em uma sala escura, uma ligação pode interromper uma cena emotiva e uma gravação prolongada faz com que o outro acompanhe o espetáculo através da tela de outra pessoa.
É tudo uma questão de convivência onde o que uma pessoa faz pode interferir diretamente na experiência de muitas outras. Uma das respostas da pesquisa resume esse conflito: “É necessário saber até onde vai o limite individual e onde começa o coletivo.”
A questão também aparece na relação com a própria atenção. Para alguns participantes, registrar demais pode fazer com que o espectador deixe de acompanhar o que acontece diante dele. “As pessoas querem gravar pra recordação e não vivem o momento. Quando é algo pontual, ok. Mas quando fica só em função disso atrapalha porque a pessoa perde noção de espaço alheio”, afirmou uma das participantes.

Se não foi postado, realmente aconteceu?
A presença do celular também acrescenta outra camada à experiência cultural: a possibilidade de transformar aquilo que está sendo vivido em conteúdo. O ingresso pode virar uma foto icônica, o look virar um vídeo para o TikTok, o show virar uma coleção de vídeos e afins.
Nesse sentido, o celular não é só uma ferramenta para guardar uma memória. Ele também pode servir para comunicar aos outros onde estamos, o que estamos fazendo e quais experiências fazem parte da nossa vida. As respostas da pesquisa mostram que reduzir esse comportamento por uma busca incansável por inúmeras curtidas seria simplificar a questão.
Isso não significa que as redes sociais não influenciam a maneira como as pessoas vivem esses eventos. Para muitos espectadores tem uma combinação entre memória pessoal, compartilhamento nas redes sociais e a vontade de reviver uma experiência especial.
A relação entre o público e o uso do celular não pode ser resumida em permitir ou proibir o aparelho dentro desses espaços coletivos. Os dados da pesquisa apontam para uma contradição em que quase todos os participantes já viveram uma situação desagradável causada por outra pessoa utilizando o aparelho, enquanto o registro de imagens também marca a vivência de muitos espectadores.
O desafio está justamente em manter um equilíbrio entre registrar uma experiência e respeitar quem também está vivendo aquele momento. Afinal, em uma plateia, o celular não é uma escolha individual.
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